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Até que morte chegue


 

 

Houve um tempo que falar de sexo era um absurdo, discutir em público então, nem pensar. Todos evitavam tocar naquilo que corromperia o nosso lado imaculado, era coisa do demo. Pais e filhos e o resto da cambada não conversavam disso de jeito algum, muitas vezes nem entre as quatro paredes, era um verdadeiro tabu. Nascíamos virgens e morríamos puros e os bebes vinham carregadas nos bicos das cegonhas.

 

 

O tempo foi passando e diversos movimentos foram acontecendo e tanto às crianças, adultos ou velhos começaram a discutir o sexo mais abertamente, sem constrangimento, até que chegamos aos dias de hoje, onde qualquer um se posta com ares de doutorado e principalmente em alguns programas de televisão que exibem convidados e sexólogos, profissão essa muito recente, pois incrivelmente ainda é um assunto que dá muito Ibope.

 

 

Entretanto, se falar de sexo deixou de ser o grande problema, outro que era visto de forma natural, que é a morte, passou a ser assunto proibido por todos. Ninguém quer mais falar de morte, ninguém quer morrer, e ninguém leva mais as crianças aos velórios, ninguém quer mesmo saber se alguém morreu. Morreu acabou, esqueçamos o assunto.

 

 

A morte sempre foi vista no ocidente como um pesadelo a que todos nós seres humanos estamos submetidos e por isso mesmo criou-se a mentalidade da obrigatoriedade de viver intensamente até que o fatídico dia chegue, e assim inventamos o viver custe o que custar ou esticar a vida até onde der, mesmo que isso represente apenas um último suspiro.

 

 

Naturalmente que ninguém quer morrer, é evidente, mas apesar disso morrermos desde o início dos tempos. A sociedade ocidental sempre teve certo constrangimento em tocar no assunto, ainda mais em tempos recentes, em que isso virou um assunto proibido. Falar dele é espantar todos, ninguém quer ouvir ou tocar no assunto, e isso é de morrer.

 

 

Eu não sou um estudioso no assunto, mas eu tenho a impressão que isso começou a ocorrer de forma mais acentuada, principalmente quando as séries de televisão japonesas começaram a chegar ao ocidente, em particular via Estados Unidos. As séries japonesas sempre abordaram o assunto morte entre as crianças com maior naturalidade, sem preconceitos e mesmo elas não ficam chocadas ao ver um personagem morrer, mesmo de forma trágica.

 

 

A cultura oriental sempre tratou esse assunto com simplicidade e nunca teve problemas com isso e em algumas sociedades do oriente, a morte é vista como um bem supremo onde morrer é digno. Os samurais, por exemplo, praticavam o “harakiri”, um suicídio através de um punhal na barriga, como sinal de dignidade, como forma de resgatar a sua honra, de seus familiares ou clã a quem pertencia. Também não precisamos chegar a tanto.

 

 

Quando os primeiros seriados principalmente japoneses começaram a chegar ao ocidente, a primeira coisa que os produtores ocidentais trataram de fazer foi a de cortarem as cenas envolvendo a morte e também outras cenas como melecas no nariz, soltar pum, ter hemorroidas, consideradas como indecentes e não educacionais às crianças.

 

 

Os produtores japoneses então, espertamente criaram a figura do herói “anti-morte”, ou seja, ele pode morrer, mas logo ele arranja um jeito de renascer novamente e tudo acaba bem. Assim chegaram o “Ultraman” que morria no último capítulo, mas logo depois reaparecia magistralmente em o “Regresso de Ultraman”, depois veio o “Ultra-Seven” que morria e depois retornava em o “Regresso de Ultra-Seven”, entre outros, todos os heróis com capacidades de morrer, mas também de milagrosamente renascer novamente. Pronto estava descoberto à fórmula do sucesso para o ocidente.

 

 

Recentemente até as nossas telenovelas apelaram para isso, uma atriz vai ter nenê, então não tem problema, simplesmente a matam, mas não se preocupem, pois assim que o bebê nascer ela voltará e sempre uma razão bem plausível será dada, e se também não tiver explicação nenhuma, não tem problema, pois o público já acostumado de que a vida é eterna, encarará tudo naturalmente.

 

 

Mas, por outro lado tudo isso está incutindo principalmente nas crianças ocidentais a sensação de eternidade, que nos tempos atuais ficou ainda mais enfatizada com a chegada dos jogos de videogames, em que o personagem morto pode ser rapidamente ressuscitado, através de alguns comandos, ou reiniciando o jogo novamente.

 

 

A sociedade moderna atual se gaba de ter acabado com certos tabus e preconceitos, mas na realidade houve apenas uma troca, ou seja, um entra em cena um e outro sai. Aquilo que era tabu ou preconceito deixa de ser e o outro que nada tinha a ver com a conversa passa a ser o vilão da vez, e assim um rodízio de tabus e preconceitos se faz, e o que isso acaba gerando é que é a questão.

 

 

No desejo de não mostrar, de não falar e nem imaginar a existência da morte, estamos criando nas pobres mentes infantis a ideia de “eternidade”, de que tudo dura para sempre, que eles nunca perderão seus entes queridos e tudo acontece como num jogo de videogame, e se assim acontecer basta reiniciar que todos eles estarão novamente de volta, mas todos nós sabemos que a coisa não é bem assim, apesar disso continuamos teimando e teimando.

 

 

Estamos esquecendo que a morte na verdade significa vida. Na natureza é assim, alguns tem que morrer para outros sobreviverem. Goste ou não, a morte representa perda, algo que se foi e que nunca mais voltará, e também representa no homem a noção de que nada é eterno, que é preciso conviver com as perdas, com os fracassos, que não somos heróis como “Ultraman” o tempo todo, morrendo e revivendo.

 

 

Na ânsia de proteger exageradamente nossos filhotes, o homem moderno começou uma onda de superproteção, colocou um anti-virus em todos e que são atualizados dia e noite, para que nenhum mal atrapalhe o bem estar do pequeno. Apenas esquecem que viver é correr riscos. Quem não corre riscos não vive, vegeta.

 

 

Nenhum animal existente na Terra faz isso, somente o homem moderno atreveu-se a isso. Todos os outros seres vivos deste planeta preparam seus descendentes para serem fortes e assim conseguirem sobreviver, e para ensinar-lhe estas duras lições muitas vezes eles acabam perdendo seus próprios filhos, mas todos eles sabem que isso tem que acontecer, é primordial, por mais dolorido que isso possa representar para eles. Apenas os mais bem adaptados sobreviverão.

 

 

Nenhuma mamãe urso deseja perder o seu filhote, mas tem horas que elas são obrigadas a fechar seus olhos, abrirem suas guardas para que o filhote aprenda a fugir do perigo e tente a qualquer custo sobreviver. Essa é a grande lição que todos os animais passam a seus descendentes, ou seja, a noção que seus filhos têm que aprender a se virar sozinhos, e que não podem viver eternamente debaixo das asas da mãe.

 

 

Somente o homem da sociedade moderna quer ser supremo à mãe natureza, e assim egoisticamente passam a superproteger seus entes queridos, não deixando que eles não sintam tristezas e desesperanças, transformando-os em eternos bebês, mesmo que ele já tenha quarenta anos ou mais. Dessa forma não permitem que o bebê se torne adulto, que cresça e chegue a maturidade, até o dia em que os bebês quarentões perdem seus pais, e aí o mundo simplesmente desaba.

 

 

Ele tenta desesperadamente reiniciar o programa, mas a coisa não funciona e somente neste instante é que ele descobre que está só no mundo, e a partir de então passa a entrar numa sofreguidão de dar dó ou então entram em pânico, se tornam completamente violentos e querem acabar com o mundo, afinal ninguém tinha o direito de fazer isso com eles, e com toda a razão, afinal ninguém lhe deixou o legado da sobrevivência, apenas o da superproteção.

 

 

A morte não é linda, nem pura, nem digna e nem nada, é apenas uma coisa natural, que está inserida dentro do contexto do mundo, do nosso mundo também. Ninguém precisa fazer adoração a ela e nem escondê-la, apenas encará-la e conviver com ela, sem eiras e nem beiras, e isso não é pedir muito, é simplesmente deixar que a mãe natureza siga seu caminho, somente só e nada mais, assim penso eu.

 

 

Criação - Osamu Nakagawa

 


 

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