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Burrice e Burrada


 

 

Há muitos anos, lá pela década de 70, havia uma profissão que surgiu quando as empresas passaram a processar seus dados através dos imensos computadores e para alimentar essa grande quantidade de dados era necessário que alguém as fizesse, assim nasceu a função de digitador, que não exigia muita inteligência, porém uma agilidade fabulosa nos teclados, atualmente profissão essa praticamente em fase de extinção, acredito eu.

 

 

Foi durante essa época, que conheci um grupo de colegas que sempre reuníamos depois do trabalho e íamos tomar aquela cervejinha e bater longos papos. Lembro-me que nesse grupo havia um rapaz, que era considerado por todos nós um burro daqueles, pois vivia dando opinião que contrariava a todos e parecia estar sempre por fora de qualquer assunto, além de estar sempre se atrapalhando com tudo.

 

 

Apesar de todos o chamarmos de burro a todo o momento, nós fazíamos questão de sua presença, assim como nunca deixou de ser convidado para as nossas bebedeiras, pois de certa forma era também aquele provocava as gargalhadas, as discussões e xingamentos por todos os lados. A certa altura do campeonato, ir ao boteco sem a sua presença era quase a mesma coisa que ir ao velório, não tinha graça alguma.

 

 

Depois o grupo se desfez e cada qual tomou o seu rumo, mas noutro dia, ao navegar pela Internet, para minha surpresa, deparei-me novamente com o nosso colega burro, agora escrevendo um belo artigo sobre economia e curioso que sou, cliquei sobre o link e logo descobri que atualmente ele é um importante consultor econômico para diversas empresas de prestígio, foi nesse momento que me veio às lembranças do tempo do boteco e do burro.

 

 

Curiosamente que, daquele grupo dos chamados "espertos", inclusive EU, ninguém se deu tão bem profissionalmente como o nosso colega burro. Foi então que a ficha caiu e comecei a questionar quem é que era o burro, assim como o que é ser burro, pois apesar do nome o animal burro não é tão burro assim, e então porque ele é chamado de burro, e porque damos esse nome às pessoas que achamos um tanto quanto imbecil ou ignorante.

 

 

Pesquisa daqui, pesquisa de lá e tempos depois descobri algumas coisas interessantes. Segundo o escritor José Pedro Machado, autor do Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, a palavra burro designa um animal da cor ruça ou pardo claro, e outros autores também contam histórias curiosas a esse respeito. Uma delas sugere que o fato de chamarmos uma pessoa pouco inteligente de burro tenha vindo do nome latino "burrus" que designa a cor vermelha ou avermelhada, que também era a cor da capa utilizada pelos antigos dicionários.

 

 

Assim sendo, com o passar do tempo o dicionário passou a ser denominado popularmente de burro, depois pai dos burros, e por extensão quem o consultava passou a ser chamado também de burro. Daí por diante, todo aquele que se mostrava não ter conhecimento de uma determinada coisa era chamado de burro, que depois passou a designar também os imbecis, os idiotas e todos aqueles que não gostamos.

 

 

Outra curiosa definição ao burro que encontrei e que me parece ser a mais convincente, diz que o nome provém do temperamento do burro, pois apesar dele ser um animal inteligente, muito forte e capaz de realizar diversas tarefas, até algumas melhor que os outros de sua espécie, no entanto o que mais chama atenção está no fato dele empacar, que significa emperrar, estacar, parar e teimar, ou seja, quando ele empaca simplesmente para e teimosamente não faz mais nada.

 

 

Se prestarmos atenção e fizermos uma comparação da teoria acima citada com as nossas burrices e burradas, observaremos que também fazemos a mesma coisa, fincamos o pé na nossa teimosia insistindo estarmos totalmente certos e por tabela passamos a não querer ouvir nenhuma opinião ao contrário, ou seja, empacamos. A partir daí até a nossa burrice e consequentemente a burrada é somente questão de tempo.

 

 

A burrice além de ser uma coisa dura de aguentar é também muito indigesta, tanto pra quem está sendo burro, assim como para o outro que tem que aturar as nossas burrices. Naturalmente que a burrice alheia incomoda mais, pois dificilmente admitimos as nossas, além disso, a burrice é algo profundamente danosa, pois com o passar do tempo nós vamos acostumando a fazer cada vez mais burradas, até chegarmos ao ponto de simplesmente empacarmos as nossas vidas de burrices.

 

 

Alguns autores também alertam que a burrice tem suas origens quando de alguma maneira fechamos as portas à qualquer diálogo ou reflexão, impossibilitando de obtermos qualquer outro ponto de vista. É o momento que simplesmente fechamos uma questão, não queremos ouvir ninguém, não queremos mais saber de nada e passamos a ter raiva de quem sabe, e assim a nossa convicção se torna tão forte que ele empaca na sua própria ignorância e na sua teimosia.

 

 

Esses mesmos autores nos citam para tomarmos cuidado ao falarmos em teimosia, pois ela é confundida com diversas outras palavras como a perseverança, por exemplo, principalmente porque as duas palavras são vistas como sendo sinônimos, devido a sua semelhança em seu conceito, porém ao analisarmos com maior profundidade concluiremos que a coisa não é bem assim como imaginamos.

 

 

Na teimosia o cara sempre insiste nos erros e cada vez que alguma coisa dá errado ele logo culpa alguém ou alguma coisa e assim como se torna um sujeito difícil de conversar, e consequentemente as pessoas começam a se afastar dele, pois logo sacam que compartilhar as ideias ou até mesmo uma discussão salutar com ele é praticamente impossível, já que ele não arreda em nenhum momento de suas convicções.

 

 

Outra coisa que muitos autores observam, é que a pessoa teimosa tende a tornar-se agressiva, quando colocada em determinadas situações, geralmente quando os seus argumentos vão se exaurindo. Nesse momento seu tom de voz aumenta podendo chegar a certas violências, tudo isso naturalmente para impor ao outro a sua irredutibilidade. Os psicólogos alertam que as pessoas que tendem a fechar a cabeça para as reflexões, também por tabela, deixam de criar novos campos para o seu lado emocional, se fechando cada vez mais na sua ignorância e consequente infelicidade.

 

 

Já a perseverança é muito diferente da teimosia, pois com ela podemos buscar os meios necessários para alcançarmos os nossos objetivos, sempre de forma aberta a todos os outros pontos de vista. Ao tornarmos perseverante passamos a não ter medo de dialogar, de ter a humildade de pedirmos ajuda às pessoas mais experientes e também aprendemos a ouvir cada vez mais e isso consequentemente fará com que busquemos outros e novos recursos, a compartilhar o nosso conhecimento e assim chegar até as nossas metas.

 

 

O que também nos faz confundir muito as palavras perseverança e teimosia é fato das duas carregarem a constância da persistência, uma coisa que perdura e aquilo que insiste. Quando essa constância andar de mãos dadas com a teimosia ela se torna um apego obstinado às suas próprias ideias, uma coisa indiscutível e irredutível, uma coisa perniciosa e que empaca. Agora, quando a persistência caminha ao lado da perseverança, então temos um quadro totalmente diferente e isso se tornará uma coisa a nos orgulhar.

 

 

A perseverança é muito parecida a uma palavra que é citada a quase todo o momento pelos japoneses que é "gambarê!", que numa tradução literal podemos dizer que significa "esforçar-te!", porém ela não é utilizada no sentindo competitivo, mas sim com a finalidade de estimular a boa vontade, a lutar pelos seus ideais, de não esmorecer diante das dificuldades e ser forte o suficiente para superar suas dificuldades.

 

 

Curiosamente o filme "Guerra nas Estrelas" possui alguns elementos orientais, principalmente japoneses que estão presentes quando um Jedi maneja a sua espada em estilo e ao modo nipônico, assim como o Jedi pode ser comparado a um samurai ou a um ninja, sem esquecer naturalmente da famosa frase repetida por diversas vezes: "Que a força esteja com você!", que tem mais ou menos o mesmo sentido que a palavra "gambarê!" possui, “esforça-te!”.

 

 

Existem alguns pensadores que acreditam que talvez o melhor remédio contra a nossa burrice, já que com a alheia nada podemos fazer, seja a aceitação da incerteza, por mais irônica que possa parecer, porque toda vez que isso acontece, nós passamos a pensar mais moderadamente, questionamos qualitativamente e não quantitativamente, já que a certeza tende a se tornar absolutas e podem acabar por se transformar numa burrice daquelas.

 

 

E é nesse ponto que a juventude atual provavelmente leve certa vantagem em relação às gerações anteriores, pois num passado não muito longe, a teimosia era vista até com certo louvor e muita gente até dizia que era sinal de boa personalidade, e curiosamente muitos ainda assim continuam a pensar. Dizem que a certeza morreu no século XX.

 

 

Atualmente as pessoas mais jovens, através da Internet e suas ferramentas trocam ideias, compartilham seus conhecimentos e muitos até constroem em conjunto com diversas outras pessoas, o que é muito louvável e salutar, entretanto a teimosia ainda impera, talvez não na mesma quantidade passada, o que já é um bom sinal.

 

 

Geralmente aqueles que têm medo de compartilhar suas ideias com outros, aqueles que adoram apenas mostrar seu brilhantismo, aqueles que não querem ver o progresso alheio, aqueles que acham a todo o momento que suas ideias serão roubadas pelos outros, já está dando o sinal de sua burrice. Em muitos sites e blogs na Internet é comum ainda encontrarmos pessoas colocando avisos garrafais do tipo, proibido copiar tal coisa sem a devida autorização ou então obrigando os seus compartilhantes a colocarem seus links ou citar as fontes,como se isso adiantasse alguma coisa.

 

 

Ao invés disso é muito mais gratificante disponibilizar um conteúdo livre pra todos do que ficar ditando normas de obrigatoriedade, pois quem tiver medo do Ctrl C + Ctrl V jamais fará qualquer coisa na Internet ou na vida. Veja o exemplo da Wikipedia, seu conteúdo está disponível a qualquer um. Não devemos também nunca esquecer que a burrice é parente próximo do preconceito, da intolerância, das brigas e até das coisas mais banais do nosso dia-a-dia como da ganancia, da indiferença, da arrogância, da falta de gentileza e educação, do pensar em apenas em si próprio, e outras porcarias afora.

 

 

Cuidado, porque isso também ocorre muitas vezes com as pessoas muito religiosas, que simplesmente passam a não tolerar e aceitar as crenças alheias, assim como alguns intelectuais especializados em assuntos únicos e que se acham donos absolutos destes conhecimentos adquiridos, portanto se colocam não somente no direito de criticar, mas também a de esculachar as obras alheias. Cuidado que da burrice ninguém escapa.

 

 

A burrice é muito parecida às doenças que não apresentam sintomas, como pressão alta, colesterol e diabetes, por exemplo, ou seja, ela está lá sem que a percebamos, uma doença invisível a nós próprios, mas muitas vezes visíveis aos olhos alheios como a dos médicos e talvez por isso mesmo sejam salutares duvidarmos sempre das nossas convicções, pois todas as vezes que estivermos muito próximo à certeza absoluta, também estaremos nas proximidades da burrice, por isso todo cuidado é pouco, principalmente quando um burro fala a outra baixa à orelha.

 

 

Muitas pessoas confundem falta de conhecimento com burrice, mas não se iludam, pois essa falta pode ser suprida rapidamente, enquanto a burrice muitas vezes é incurável, principalmente para aqueles que teimam sempre em estarem certos, como geralmente acreditamos que estamos, por isso é sempre bom lembrar-se de sermos perseverantes, porém nunca teimosos. E, se assim tomarmos o devido cuidado, evidentemente que não nos transformaremos em pessoas melhores, mas pelo menos acumularemos menos burradas em nossas vidas.

 

 

Texto - Pesquisa - Criação = Osamu Nakagawa

 


 

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