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Outros Carnavais


 

 

Nasceu Maria, quando a folia

Perdia a noite, ganhava o dia

Foi fantasia seu enxoval

Nasceu Maria no carnaval

 

E não lhe chamaram assim como tantas

Marias de santas

Marias de flor

Seria Maria, Maria somente

Maria semente de samba de amor

 

Não era noite não era dia

Só madrugada só fantasia

Só morro samba viva Maria

Quem sabe a sorte lhe sorriria

 

E um dia viria de porta-estandarte

Sambando com arte puxando cordões

E em plena folia decerto estaria

Nos olhos e sonhos de mil foliões

 

Morreu Maria, quando a folia

Na quarta-feira também morria

E foi de cinza seu enxoval

Viveu apenas um carnaval

 

Que fosse chamada então como tantas

Marias de santas

Marias de flor

E em vez de Maria, Maria somente

Maria semente de samba e de dor

 

Não era noite não era dia

Somente restos de fantasia

Somente cinzas pobre Maria

Jamais a vida lhe sorriria

 

E nunca viria de porta-estandarte

Sambando com arte puxando o cordão

E não estaria em plena folia

Nos olhos e sonhos de seus foliões

 

E não estaria

Em plena folia

Nos olhos e sonhos

De seus foliões

 

 

Assim era a música de Luis Carlos Paraná, defendida por Roberto Carlos e acompanhado do conjunto “O Grupo”, durante o III Festival da Música Popular Brasileira, promovida pela TV Record, no ano de 1967. Evidentemente que o Carnaval diferentemente dos Tangos e Tragédias está mais ligada a alegria e a capacidade de jogar todas as neuras de um ano inteiro de muito trabalho e cansaço. Hora em que o folião pode soltar a franga, e deixar que todos os seus problemas saírem pelo suor de seu corpo, para assim enfrentar novamente o seu dia-a-dia pra mais trezentos e poucos dias, e assim retornar no ano que vem novamente, que lá estará o Carnaval a sua espera.

 

 

Provavelmente foi com esse espírito que o Carnaval no Brasil prosperou, e se tornou uma das festas populares mais significativas deste país. Historicamente não tenho a mínima ideia de sua origem e como ela foi criada, só sei que quando nasci o Carnaval já ali estava e até os meus pais, que eram de origem nipônica ficavam alegres com as músicas e doidos pra cair na farra, apesar de permanecerem tímidos e não demonstrarem a sua euforia diante dos outros.

 

 

Carnaval é a maior festa popular que este país possui, que ultrapassa fronteira e com ela vai atraindo uma porção de gente do mundo inteiro, que aqui vem pra ver a mulata, e atualmente até as nossas branquelas sambar e requebrar do jeito que somente ela sabe fazer. É também uma vitrine de corpos magníficos a desfilar, gingados e um sapatear dos pés, misturados ao ziriguidum e balacubaco, que muitos gringos tentam inutilmente imitar, mas nunca chegam sequer aos pés dos nossos sambistas, que parece que já vieram com esse DNA impregnado em suas veias, desde a hora que chegaram ao mundo.

 

 

Carnaval também é sinônimo de Sargentelli e suas mulatas, de Chiquinha Gonzaga, dos blocos na rua, de Almirante, de Mamãe eu Quero, de Black-Out, das Chanchadas da Atlântida, do sobe e desce das ladeiras de Salvador, do frevo em Recife, da mistureba de ritmos desde maracatu ao boi bumbá, do rock ao baião, do Gonzagão ao Neguinho da Beija-Flor, todos num só ritmo e compasso.

 

 

Carnaval é antes de tudo a nossa grande virtude, que de uns tempos pra cá está se tornando apenas palco das celebridades, onde o povo tem que ficar cada vez mais longe, brigando pelos seus ingressos e assim conseguir assistir ao seu Carnaval apenas pelas arquibancadas ou então pela televisão, que não tem tanta graça assim, porque o bom mesmo é lá estar, lutando pela sua escola preferida, escutando o ensurdecer barulho das baterias e de seus puxadores com seu baticumdum, pulando e dançando.

 

 

Que saudades dos velhos Carnavais Cariocas onde até os bicheiros se rendiam a ela para que se tornasse a maior festa do ano, mesmo debaixo das contravenções e de sua rebeldia diante à lei, que era tudo esquecido nos dias de folia. Saudades também dos velhos foliões, que já se tornaram estrelas no céu, que através de sua persistência e valentia lutaram como ninguém para criar a sua escola, e assim levar o seu povo às ruas para somente divertir e se alegrar.

 

 

Também da Maria lavadeira, que no Carnaval deixava o seu velho tanque e se transformava na Princesa Leopoldina, e do Chico borracheiro, que nas noites de carná tornava-se o poderoso rei Dom João VI, a majestade das majestades. Do Pedro açougueiro que passava o ano inteiro comendo de tudo pra ficar gordinho e assim, quem sabe, conquistar o seu lugar de Momo, ao lado de Matilde costureira, rainha pela sua própria exuberância.

 

 

Assim é o Carnaval que às vezes gosto de relembrar, mas nem por isso estou a criticar as de agora, apesar de muitas vezes até tratá-lo como um Carnaval Hollywoodiano, de pessoas ricas, famosas e glamurosas, e outras milongas mais, e que por outro lado, provavelmente não teria como sobreviver se assim não fosse.

 

 

Talvez sinais dos novos tempos, onde a dedicação e o amor à escola, também tiveram de dar espaço ao merchandising, as tecnologias de ponta e ao um batalhão de profissionais de diversas áreas, todos na luta por um pontinho a mais, que pode significar vitória ou não no último momento. Por isso tudo me perdoem os carnavalescos desse país varonil pelas minhas intempéries e permitam a este pobre coitado, apenas matar as suas saudades e nada mais.

 

 

Texto - Pesquisa - Criação = Osamu Nakagawa

 


 

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