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Clóvis


 

 

Clóvis aprendeu de seu pai a mania que dizer tudo que viesse à cabeça e por mais que dona Ernestina, sua mãe pedisse pra não fazer isso, não tinha jeito. Muitos diziam que Clovis nascera igual ao pai, que também era conhecido por toda a cidade pela sua "franqueza" em dizer tudo àquilo que ele pensava a respeito de tudo, e com isso grande parte da cidade tornou-se seu inimigo. Muitos eram aqueles que não o suportava e com isso dona Ernestina sofria muito.

 

 

Ela era uma mulher, ao contrário de seu marido, muito ponderada e muito justa com as pessoas, incapaz de qualquer indelicadeza com qualquer que fosse, e por isso mesmo muito criticado pelo marido, que a chamava de boboca, de não ter coragem de dizer a "verdade", de ser falsa com as pessoas e assim por diante. Seu Agenor, como se chamava seu marido, tinha também o seu lado humano, não podia ver ninguém a passar necessidade, que lá ia ele pegar alguma coisa de sua horta para que as pessoas pudessem aliviar pouco de sua dor.

 

 

O maior orgulho de seu Agenor era o seu filho Clóvis que era a sua cópia, tanto fisicamente como em temperamento. Já com os outros dois filhos, seu Agenor vivia ralhando com eles, dizendo que haviam puxado a mãe, viviam de cabeça baixa e por isso mesmo as pessoas viviam tratando-os como bobocas. Assim Clovis foi crescendo e com o passar do tempo foi ficando cada vez mais a semelhança do pai. Depois de completar seus 20 anos, Clovis revolveu vir para o sul tentar levar uma vida melhor do que naquela pacata cidade do nordeste.

 

 

Chegou a São Paulo, com a cara e coragem, com uma mão na frente outra atrás, passou uns dias andando pra um lado e outro, perdido na grande metrópole, até que encontrou um homem também nordestino que lhe deu acolhida em sua casa, junto à sua família. Um homem simples que morava na periferia e que vivia vendendo limões nas feiras livres. Com o pouco que ganhava trazia o que comer para sua mulher e seus dois filhos ainda bem pequenos, moravam num pequeno barraco, montado ao lado de um campinho de futebol da molecada.

 

 

Lá Clovis passou algum tempo, até conseguir um emprego de lavador de carros num Lava-jato que ficava a uns três quilômetros da casa onde estava hospedado. Assim que recebeu o primeiro pagamento passou a ajudar o pessoal nas despesas da casa e como tinha o colegial completo, tempos depois conseguiu trabalhar num escritório de um despachante local, melhorando assim seu trabalho e sua condição, mas pouco tempo depois com a sua mania de falar o que lhe vinha à cabeça acabou entrando em conflito com a família que o acolhera e aborrecido alugou um quartinho nos fundos de uma casa para morar.

 

 

Lá conseguiu um colchão velho que a dona da casa lhe ofereceu e assim foi vivendo. Tempos depois voltou a estudar fazendo um curso técnico no Senai de torneiro mecânico e ao terminar o curso logo foi chamado por uma grande empresa para lá trabalhar. Pouco tempo depois entrou em conflito com os colegas por causa de sua mania de falar aquilo que pensava e acabou sendo dispensado. O mesmo aconteceu com os outros três empregos que conseguira.

 

 

Certo dia, um senhor que morava perto do quartinho ele havia alugado, ao encontrar com ele num bar chamou atenção de Clóvis dizendo ser ele um rapaz muito arrogante para sua idade e assim passaram a tarde inteiro discutindo o que era ser sincero, arrogante, mal criado, falta de educação, e outras coisas mais, até que Clóvis se aborreceu e foi embora, mas toda aquela conversa ficou atravessada em sua garganta. Por essa época Clovis trabalhava numa pequena oficina como torneiro e no dia seguinte chegou começou a trabalhar calado.

 

 

Naturalmente que todos estranharam, alguns tentaram até provocá-lo, mas Clóvis manteve-se calado, respondeu apenas o necessário e ao terminar o expediente foi embora. Ninguém entendeu nada e no dia seguinte foi a mesma coisa e assim foi à semana inteira. Passados alguns dias seus colegas já não tentava mais provocá-lo e a mostrar-lhe até certo carinho por ele, mas assim mesmo todos estavam intrigados com a mudança de Clóvis. Depois de mais alguns dias, um de seus colegas se aproximou na hora do almoço e perguntou a ele se estava acontecendo alguma coisa, se ele estava passando por alguma dificuldade e coisas assim.

 

 

Clóvis pensou um pouco e respondeu ao colega que ele já havia sido chamado de tudo nesta vida, mas nunca esperava ser chamado de arrogante, pois assim ele não se considerava. O colega olhou para ele e disse que quem assim o dissera estava certo, porque ele era mesmo arrogante, um dono da verdade, a achar que somente ele estava certo em todos os momentos, mas por outro lado, sentir que ele estava a pensar sobre tudo isso significava um bom sinal. Ao escutar aquilo Clóvis repentinamente explodiu e mandou o colega tomar naquele lugar, que todos eles eram uns imbecis, uns falsos e por pouco não acaba apanhando de todos. Seu chefe ao ver tudo aquilo mandou Clóvis embora na mesma hora.

 

 

Aquele foi seu último emprego naqueles tempos, depois acabou ficando sem dinheiro e sem um quarto para morar foi bater novamente na porta daquele primeiro senhor que o acolhera, mas desta vez o homem não lhe deu pousada. Mandou que Clóvis esperasse um pouco e logo depois voltou com alguns trocados e disse para ele voltar para sua terra e assim Clóvis fez pegando carona com os camioneiros. Ao chegar a casa novamente foi recebido por todos com grande alegria, até uma festa fizeram para ele naquele dia.

 

 

Passados algumas semanas, Clóvis viu seu pai ralhando novamente com a sua mãe chamando-a de frouxa, de baixar a cabeça pra todos, de não dizer a "verdade", de ser falsa e por isso todos a faziam de boba. Repentinamente Clóvis se levantou e partiu em direção ao pai, diante dos olhares atônitos de seus irmãos, levantou o dedo na cara de seu pai e disse-lhe poucas e boas, dizendo que passara por todos os tipos de apuros em sua vida, porque ele havia incentivado a ser daquele jeito, um grande imbecil.

 

 

Seu pai não aguentou tamanha presepada do filho, e mandou ele embora de sua casa. Clóvis arrumou suas poucas trouxas e pouco antes de partir, sua mãe lhe disse para procurar sua tia Clotilde que ela a acolheria em sua casa, e assim ele partiu. Chegou à casa de sua tia Clotilde e lá ficou a morar. Com o passar do tempo até a tia Clotilde passou a ficar admirado com a grande mudança que ocorrera em Clóvis, que se transformara num homem bem mais parecido com a sua mãe Ernestina, muito diferente daquele garoto metido a besta que ela sempre conhecera.

 

 

Passado um tempo, Clóvis retornou novamente para São Paulo e conseguiu um emprego numa oficina e passou a consertar carros. Conheceu a morena Sandra, por ela se apaixonou e logo se casou e tiveram dois filhos. Clóvis nunca mais perdeu outro emprego, apenas foi trocando para melhorar sua condição e pra ganhar mais em outra empresa, onde passou a se dar bem com todos e a respeitar as opiniões alheias, e a entender de vez que falar o que der na cabeça na maioria das vezes é pura estupidez, uma falta de delicadeza para com os outros. Sinceridade pode até ser uma verdade para poucos, mas não precisa necessariamente ser cuspida na cara de ninguém a toda hora.

 

Retornar/Outros

 

 


 

 



 

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