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Eleitos


 

 

Certo dia eu acordei num lugar totalmente estranho tendo a sensação de estar sendo levado a um destino ignorado por alguém ou alguma coisa que eu não tenho a mínima ideia do que seja ou quem fosse. De vez em quando durmo e vez por outra acordo e me vejo dentro de diferentes cenários incompreensíveis, às vezes noto que existem milhares de pessoas ao meu lado, andando de um lado para outro, cada pessoa vestindo de uma maneira diferente, todas caladas e a olhar curiosamente um para o outro como eu estou também fazendo em relação a eles. Noto que são pessoas de ambos os sexos, de diferentes épocas da humanidade, do passado, presente e também do futuro, assim como de diferentes partes do continente ou algum outro lugar que nem posso imaginar, uma mistura imensa de pretos, brancos, amarelos e mestiços de todas as espécies, todos eles com seus trajes típicos, talvez as de seu tempo, e o porquê de estarmos todos aqui é ainda uma grande incógnita.

 

 

Durmo novamente e ao acordar percebo que estou sentado juntamente com outras pessoas num grande local onde existem apenas cubos e que todos estão usando para se sentarem e nada mais, nem janelas, nenhum cartaz ou algo escrito, somente um grande salão branco da qual não se sabe onde fica a frente nem o fundo, onde ela começa e nem onde termina, ou seja, apenas uma imensidão. Penso que morri, mas parece que não foi o que aconteceu e sim que estou vivenciando uma mistura de sonho, realidade e fantasia, e que estou acordando em algum lugar ou até mesmo quem sabe no purgatório, ou na entrada do céu ou do inferno, enfim, estou numa grande sala de espera, com muitas perguntas sem respostas. Olho para outras pessoas e sinto que eles estão também pensando a mesma coisa que eu, ninguém entendendo nada do que está acontecendo, porém logo caio num profundo sono outra vez.

 

 

Acordo e desta vez estamos todos estão de frente ao outro, geralmente um homem defronte a uma mulher, mas também tem homens frente a outros homens e também isso acontece com algumas mulheres, porém não vejo nenhuma criança e nem tampouco anciões, apenas pessoas aparentemente entre seus 30 anos até os 60, somente dentro dessa faixa. Vem o sono novamente, mas logo acordo e agora estou de frente a uma mulher muito linda como eu jamais vi em toda minha vida, não com aquela beleza que estamos acostumados ditadas pela sociedade, porém uma sutil e incompreensível beleza que parece ter sido trazida lá do nosso inconsciente, como se fosse aquilo que sempre desejássemos, mas nunca conseguimos imaginar e nem possuí-la, algo que somente de vez em quando passa rapidamente num lampejo entre um ou outro pensamento.

 

 

Fico a olhar para ela com profunda admiração e também noto que ela faz o mesmo em relação a mim, nossos olhares se cruzam, tentamos falar ou tocar no outro, mas não conseguimos, pois de alguma maneira estamos congelados e não podemos nos mover ou emitir qualquer tipo de som, apenas os nossos olhos andam de um lado para outro, assim como as nossas narinas sente o perfume agradável que exalam de nossos corpos.

 

 

Durmo outra vez e novamente ao acordar estou segurando as suas mãos, olhando para seus lindos olhos e desta vez conseguimos falar um com o outro. Fico sabendo que ela é uma polonesa do século 19, uma pequena comerciante que mora num dos bairros próximos a Varsóvia. Também descubro que seu nome é Irvana, que tem 40 anos de idade, mas ela não se lembra de ter sido casada, se tem filhos, assim como eu também não me lembro mais quem são meus pais e familiares, somente algumas pequenas informações me restam, a qual vou trocando com ela e ao mesmo tempo em que elas também vão desaparecendo da minha mente, como se toda vez que eu contasse alguma coisa da minha vida ela simplesmente apagasse, onde pude concluir que se eu não me lembro mais do meu passado é porque talvez eu já a tivesse contado, e o mesmo dela para comigo, mas que eu também não me lembro.

 

 

Por quanto tempo ficamos a conversar não tenho a mínima ideia, mas curiosamente nós nos entendemos perfeitamente como se nós dois falássemos uma só língua, assim como não mais nos lembramos de nenhuma expressão nativa ou qualquer outra e apesar de alguns terem uma vaga ideia de sua origem. Quanto mais tempo passo com ela parece que vamos aos poucos compreendendo cada vez mais um ao outro, ficamos um mais próximo ao outro, como se nós nos conhecêssemos a muitos e muitos anos, e também vamos se tornando cada vez mais íntimo um em relação ao outro, e isso parece estar acontecendo não somente conosco, mas sim para todos que ali estão, pois as atitudes de um é muito semelhante a de todas as outras pessoas.

 

 

O sono chega novamente e logo ao despertar toda a estrutura na qual estamos começa a sofrer alguns pequenos abalos sísmicos, e todos nós começamos a conversar uns com os outros e chegamos a conclusão de que provavelmente estamos dentro de imensa nave espacial a caminho de algum destino da qual não sabemos. Todos nós começamos a ter a sensação de que por algum motivo cada um de nós foi escolhido a dedo para estar neste local, um eleito. Sem percebermos cada um vai descobrindo que todos os presentes vieram de lugares e épocas diferentes, e alguns também de locais que nunca ouvimos falar. Até notamos a presença de alguns casais estranhos, provavelmente pré-históricos que lá estão e somente sabe nos contar o que gostam de caçar e como fazem isso. Também encontramos pessoas do futuro muito a frente do nosso tempo, alguns talvez de uma época tão longínqua que mal conseguimos compreender seus pensamentos ou significados.

 

 

Após diversos sonos vamos descobrindo mais coisas das outras pessoas ao mesmo tempo em que vamos esquecendo quem nós somos, e passamos a conhecer cada vez mais apenas do próximo e a nossa identidade vai assim desaparecendo, até que certa hora um deles desconfia que este lugar em que estamos é uma espécie de arca transportando diversas pessoas de diferentes épocas e nacionalidades para uma determinada finalidade que ainda não sabemos. Curiosamente essa grande espaçonave, se assim podemos chamá-la não tem nenhuma tripulação aparente, nem mesmo uma casa das máquinas ou outras dependências, é como se fosse um grande ovo a vagar pelo espaço, se é que estamos no espaço, pois nada sabemos e apenas conjecturamos.

 

 

Nossa viagem assim prossegue e a cada momento uma surpresa acontece e vamos descobrindo e desconfiando de mais e mais coisas. Muito tempo se passa entre diversos sonos até que certo dia ao despertar estou com a bela Irvana longe daquele grande saguão, e sim num pequeno pedaço de terra contendo plantas, pedras, riachos que nascem espontaneamente e desaparecerem misteriosamente ao fim do pequeno bloco de terra, e que simplesmente flutuam no espaço infinito, onde ao lado passam outras também e em cada uma delas com um par de pessoas ou então diversos tipos de seres vivos ou até animais já extintos, e até criaturas inimagináveis que parecem terem sido retiradas de algum livro de ficção científica, e cada qual com o seu pedaço de chão, o seu lugar, todas elas a flutuar uma próxima a outra e em constante movimento extremamente lento, para o lado, pra frente, pra trás, para cima e para baixo, tão calmamente que mal percebemos que está em movimento.

 

 

Apenas percebemos o movimento ao ver as outras terras passando bem lentamente e constantemente ao nosso lado, todas elas dispostas em infinitas e milhares de camadas tanto para cima como baixo, entreabertas por diversas e imensas bolhas de água, outras de nuvens, de gases e outras de líquidos estranhos de diversas cores, tonalidades e diferentes tamanhos, que podemos tocá-la ao passar por perto, sentir o seu frescor, o cheiro, às vezes a sua textura, mas que permanecem sem se romper por mais que coloquemos as nossas mãos dentro dessa grande bolha, onde podemos até pegar um pouco e tomar, sentir o seu sabor ou cheiro que é também diferente a cada momento.

 

 

Nesse local não existe à noite, apenas o dia, assim como não sentimos sono, mas dormimos vez por outra, não sentimos necessidade de comer, mas podemos fazer isso, não sentimos sede, porém podemos beber a hora que bem entendermos, entre outras. Também podemos conversar com os outros de outros blocos de terras sem a necessidade de ficarmos gritando um com o outro ou tendo que nos deslocarmos para lá e vice-versa, até mesmo com algumas criaturas estranhas que parecem ter a sua própria cultura e filosofia, de tal forma que os nossos pensamentos chegam até eles e os deles até a nós. Ao trocarmos nossas impressões chegamos a diversas conclusões fantásticas, ao mesmo tempo em que ninguém sente mais nenhum tipo de dor ou sofrimento, tampouco felicidade, porém é uma sensação muito agradável e de paz. Não mais nos lembramos dos nossos passados, mas os conceitos de ética, moral, certo e errado, do bem e do mal são muito fortes e é através delas é que vamos refletindo e questionado o nosso presente e chegando a várias conclusões e pensamentos.

 

 

Como já foi dito anteriormente não sabemos o porquê de aqui estarmos e porque somente nós fomos os escolhidos, bem como não sabemos o paradeiro de outras pessoas que povoam de vez em quando os nossos pensamentos, como se um dia todos nós já tivéssemos pertencido a uma mesma sociedade ou família, rostos esses que surgem repentinamente e constantemente, mas não sabemos quem são. A impressão que muitos de nós temos é que estamos aqui para reiniciar algo que, por algum motivo não deu certo, e que a nossa função é a de recomeçar a partir de uma coisa passada, porém que não precisa necessariamente estar em nossos pensamentos para não ser realizada da mesma forma que já aconteceu.

 

 

Temos o livre arbítrio de escolhermos o caminho que desejarmos, assim como fazer os experimentos que quisermos, pois praticamente tudo que desejamos, podemos realizar com certa facilidade, assim como já temos uma incrível compreensão de diversas coisas que não sabemos onde aprendemos como sexo, matar, comprar, holocausto, guerra, bondade, caridade, inveja, ciúmes, enfim uma série de coisas que temos certeza que conhecemos, assim como a nítida impressão que já o utilizamos em algum tempo, somente não se sabe onde e nem quando.

 

 

De repente entro num profundo sono e ao acordar vejo que agora estou num lugar completamente diferente e pouco a pouco vou percebendo que estou novamente de volta ao meu local de origem, ao meu lar, no planeta Klorhus IV, pertencente à constelação de sagitário, assim como começo a perceber que o meu mundo é muito parecido ao descrito pela terráquea Irvana. Consigo ver minha cidade, minha família, meus amigos e todos os seus habitantes, sinto o aroma das flores e das comidas de algumas casas. Alguns minutos depois de desfrutar do meu retorno começo a lembrar de que tudo isso aqui já foi um belo planeta, muito parecido a Terra, com sua natureza exuberante e que tudo se plantando dava, mas que hoje é apenas mais uma imensa massa totalmente morta no universo, completamente árida sem ar, nem água, nem nada, apenas argila torrada pelo sol de terceira grandeza que gira e mantem a sua volta os cinco planetas, todos iguais a Klorhus IV, extremamente quente e vazia.

 

 

Também lembro de que este planeta já foi um dia um local de muitas e muitas vidas e de diversas espécies, mas a nossa vaidade, a ganancia, a inveja, a cobiça pelo poder fez de nós senhores das guerras, desenvolvemos tecnologias e assim aniquilamos os nossos inimigos e finalmente a nós próprios, deixando como legado o extermínio da vida de um planeta inteiro que já não mais existe a cerca de dois mil anos. Esse é o meu lar, que fica a milhares de milhares de quilômetros de distância do planeta Terra, e que apesar de nunca termos tido contato um com o outro parece que temos um Deus em comum que nos juntou num mesmo sonho, numa nova chance, já que é possível que a vida seja apenas uma realidade matematicamente improvável, uma metáfora, uma quimera sem sentido, totalmente indefinido ou até mesmo um nada, mas inacreditavelmente passível e suscetível de ser sentida e experimentada, se assim o desejarmos e dedicarmos com as nossas mentes e corações a ela sem egoísmos ou vaidades, não importando em que mundo, época ou situação possa estar. No fundo a vida não existe para ser explicada, quando muito significa um talvez, pois ela nunca é uma certeza ou então apenas um sei lá, e que assim seja.

 

Retornar/Outros

 

 


 

 



 

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