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Outros - Rima - O Índio


 

 

Certa feita,

eu i a nossa família,

fumo viajá,

lá pros lado du Pará

Chegando por lá,

meus pais arresolveu,

di cara logo comprá.

Uns gado pra modis nois ficá,

i pra logo podê assentá.

Pois naquelis tempo,

a vida tava de amargá,

i tudo a piorá

 

 

U lugá num era tão bão amsssim,

dava inté pra arrepiá.

Mais o importanti é que ingora,

nóis tinha donde morá.

Antes di ficá naquele lugá,

nois vivia du nosso cafezá.

Mais tudo começô a arruiná,

intão meu pai preferiu si mandá.

 
 

Lá havia gado dus bão,

i tudo di raça campião.

Eu tinha inté um boi,

qui si chamava truvão.

Aquilo sim foi um vidão,

i isso já faz um tempão.

Us gado era di muió qualidade,

i valia um dinheirão.

Meu pai num sabia muito mexê,

com tudo aquilo não.

 
 

Amssim tratô logo di arrumá,

um bão pião pra lhi ajudá.

Ele i meu pai logo tratô,

du manejo naquele rincão.

Antis qui a tudo perdesse,

i nem tarvez tivesse,

nada pra vendê no leilão.

Meu pai era um cabra valentão,

amssim pegô logo u jeitão.

Pra modis sustentá toda a família,

comprô inté um leitão.

 

 

Tombém pra aquelis lado,

havia muitas coisa di daná

Inté tribo di índio,

di vez em quando aparecia por lá

Todo mundo morria di medo,

pois eles eram di apavorá.

Arguns diziam inté,

qui era capaiz de nus capá.

 
 

Certo dia uma tribo surgiu,

i elis era di arrepiá.

Todos cumpletamente peladu,

i nois fiquemo a olhá.

Eles tinha uma flexa i um arcu,

i na cabeça um cocá.

Amssim qui eles adentrô,

todos fiquemo a calá.

U medo era tanto,

qui noís dismaiava,

só delis si apruximá

 
 

Mais aí, uma coisa acunteceu,

lá pros lados dus matagá.

Dizem qui arguns dus meninu,

pra aquelis lado si perdeu,

i isso  foi coisa di amargá.

Um corre corre dus diabos,

pra modis logo podê encontrá.

Aquelis pobris minunu,

antis dos índios chegá,

tombém naqueli locá.

 
 

Mais tardi nóis encontremo por lá.

i todos us mininu istavam a brincá.

Com arguns mininu índios,

todus alegremente a festejá.

Di repenti todos nois fiquemo,

cara a cara a olhá.

Todos us mininu,

sem raça i nem credu,

a brincá di pulá i  farreá.

Aquilo foi pra nóis uma lição,

só di lembrá mi faz arrepiá.

Discubrimos qui us índios,

num eram amssim tão canibá.

 
 

Quandu nois vortemo,

com todos us mininu,

u povo ficô a si alegrá.

Teve música i festança,

muita bebida i cumilança

Inté us índios istavam lá,

todos juntos para brindá,

i comemorá.

Foi a coisa mais bunita,

a acuntecer por lá,

índios e brancos a si abraçá.

Inté parecia qui Deus,

havia feito um milagre,

naqueli pobre arraiá.

 
 

Aqueli acuntecido,

fez o povo si acarmá,

i muita coisa pra pensá.

Dispois daquelis dia,

nunquinha mais um índio tivera,

di si humilhá.

Amssim tombém,

comu todu u povo passô,

a respeitá i inté ajudá

Isso mostrô pra muita gente di lá,

qui as coisas podia inté si arterá.

Si a gente aprendesse a zoiá,

us outros povo daqueli lugá,

cum otro olhá.

 
 

Amssim passados uns tempo,

fiquei amigo di um índio jururú.

Qui morava lá pros lado di Bangú,

donde tinha muita cobra urutú.

Eu num sei proque,

mais o nome da tribo,

soava mais como babaçú.

Intão o pequeno índio mi explicô,

qui na verdadi era mogi-guaçu

 
 

Mais tombém havia aquelis,

qui chamava di terra de Paraguaçu.

Outrus diziam qui lá tinha,

bastanti jacacuçu,

tombém aracaju i guandu.

Eu num tinha medo disso não,

mais sempre ficava de zóio nu jaburú

Não cuistava prestá atenção,

pur isso andava com uma vara de bambú.

 
 

Mais eu gostava du amigo índio,

a quar demorei a seu nome a aprendê.

Por mais que ele me ensinasse,

num conseguia intendê,

todo aquele parecê.

Eu tava cumeçando a padecê,

i antes que ele perguntasse,

saia pelas culatra cum outro cunversê.

Inté que um dia cansado fiquei,

i assim parei i passei,

a lhi chamá di voismecê.

 
 

U pequeno índio nascera,

numa pequena tribu tapera.

Qui sempri mi fizera,

di bem mi recebê.

Todo aquele trelelê,

era intriga darguns,

só pra mardizê.

Aus poucos comecei a aprendê,

coisas vossas qui passei a aculhê.

Eu tava inté cumeçando a parecê,

i inté um indiozinho sê,

cum todo aqueli cunhecê.

 
 

U tempu foi passando,

i nois fiquemo a brincá,

intão aprendi inté a nadá.

A tarde íamos pra ribeira,

pra modis mergulhá,

i pruque di num pescá.

Nas árvores grandonas subi,

o vento na cara senti i sem mi feri.

Tombém outras coisas aprendi,

apanhar frutinhas,

gostosas i saborosas,

mais não as danosas.

Muitos bichos havia no matagá,

arguns brabus di amargá.

Inté tatú tinhas pelas bandas de lá,

mi dava vontadi di caçá.

 
 

Mais o indiozinho mi ensinô,

qui isso num era coisa pra brincá,

apenas pra fomi saciá.

Muitos ensinamentos a pensá,

pra usá sem pestanejá,

isso é bom di si falá,

pra nunca si queixá.

Tombém passei a bisbilhotá,

uma índia que tinha pur lá.

Certu dia nervoso fiquei,

quandu dela mi aproximei,

tremi i quasi chorei.

Meu rosto ficô a avermelhá,

i numa dessas acabei por mijá.

Fiquei cum vergonha dela mi gozá,

ao invés disso pacientemente,

mi ensinô a namorá,

i tombém a beijá.

 
 

U nosso amor floresceu,

mais um dia arguma coisa mudou,

um fato estranho acunteceu.

Quando fiquei a sabê das nutícia,

di que us pais da índia,

a outru prometeu.

Fiquei maluco de raiva,

uma doidora tomô conta di eu,

i tudo escureceu.

Quis sabê logo quem era,

esse rivar que apareceu,

quando tudo si esclareceu.

Segundo as tradição,

logo que a índia nasceu,

um acordo logo si estabeleceu.

 
 

Pra quandu ela crescê logo permanecê,

junto daqueli qui em seguida nascê.

Intão vasculhei em toda a taba,

quem dispois dela logo nasceu,

era u índio amigo meu.

Quando eu amssim descobri,

meu coração si emudeceu,

i tudo si empalideceu.

Coisas nebulosas mi apeteceu,

naquela zóra eu quis surrá,

aqueli pigmeu amigo meu.

Inté os braçus cheguei a levantá,

ele apavorado ficô a mi olhá,

i isso mi intristeceu.

 
 

Logo o juízo em mim vortô,

i tudo se acarmô.

Dei graças a Deus por eu ter parado,

eu estava envergonhado.

Se isso num tivesse acuntecido,

quem sabe inté tarvez,

a eles tivesse matado,

inda bem qui fiquei resignado.

Despedi da minha amada,

qui ficô amargurada,

i tombém do índinho amigo meu.

Qui inda num intendia,

a tudo qui assucedeu.

Amssim olhei pra inquela ardeia,

pela úrtima veiz.

 
 

Daqueli lugá embora fui,

nunca mais lá vortei.

Por muito tempu fiquei aturmentado,

meus chão havia rachado,

um buraco tinha si formado.

Passei a ficá muito tempu calado,

sofrendo acabrunhado.

Mais u tempu mi ensinô,

qui apesar disso tudo.

Foi mió eu ter vivido,

amado e tombém sonhado.

Ingora tudo isso é passado,

mais inda sinto um peito apaixonado,

quasi calado,

mesmo a tudo cicatrizado.

 

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Criação: Osamu Nakagawa

Setembro de 2010


 



 

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