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João


 

 

O senhor João Carlos da Silva nasceu no ano de 1940, numa família de classe média baixa da uma pequena cidade de Minas Gerais, chamada Ribeirão da Mata, município de Vespasiano, cidade essa que nasceu após a instalação de uma estação de trem em 1915. Lá mesmo estudou até completar o antigo ginásio, e depois veio sozinho para a capital de São Paulo, morar na casa do tio, trabalhar e continuar seus estudos.

 

 

Seu sonho era ser um contador de uma grande empresa e para realizar seu sonho, paralelamente ao seu trabalho começou a estudar a noite, depois de seu expediente como auxiliar de escritório numa casa de câmbio. Imbuído de perseguir seu objetivo e sempre agir corretamente com todos os seus princípios, nunca aceitou sair com amigos para uma farra ou até mesmo tomar umas cervejinhas depois do expediente.

 

 

Ele tinha como meta ser um contabilista e era somente nisso que ele pensava. Lá nessa casa de câmbio permaneceu até conseguir se formar em técnico de contabilidade. Foram quase quatro anos que ele fez todos os sacrifícios possíveis e imaginários para alcançar o seu sonho. Deixou de sair com seus amigos, não arranjava namoradas e com o passar do tempo começou a achar todos seus colegas fúteis, sem objetivos na vida e levar a vida a farrear.

 

 

Até mesmo aqueles que farreavam, mas estudavam e procuravam subir na vida, ele não poupava suas críticas, pois apenas o seu ponto de vista era o correto e o certo a fazer na vida. Certo dia, durante um culto na igreja conheceu Heloisa, uma jovem muito parecida com ele, com os mesmos ideais, que não gostava de sair com suas amigas, a dedicar a ser alguém na vida, uma verdadeira moça prendada e de bons princípios.

 

 

Os dois começaram a namorar e depois que João e Heloisa se formaram em suas carreiras, ambos conseguiram um bom emprego, ele como contabilista numa pequena empresa de transportes e ela como professora primária numa escola perto de sua casa. Assim resolveram se casar e formar sua família e nove meses depois chegou o único filho Mário, a qual eles dedicaram suas vidas para torná-lo um homem de bons princípios, como eles eram. Assim Mário se tornou.

 

 

João e Heloisa ao filho ensinaram a lutar pelos seus objetivos, ser uma pessoa correta e não ficar desperdiçando sua vida em farras inúteis e sem cabimento. Dentro desse ambiente criaram Mário em plena harmonia, mas apenas na plenitude de suas vidas frias e vazias, uma vida morna, com apenas poucos amigos, sem depender de ninguém e sem que nenhum de seus vizinhos pudesse dizer sequer um "a" deles. Eram tão corretos, tão sinceros, cheios de virtudes, diferentes de outras famílias da mesma rua em que moravam que praticamente todos desconheciam da sua existência.

 

 

Eles não se metiam em fofocas, dificilmente ficavam a conversar no portão e geralmente apenas cumprimentam seus vizinhos respeitosamente, porém sem intimidades. Era uma família de classe média baixa, que nunca precisaram pedir dinheiro pra ninguém, nunca deveram um centavo sequer no armazém da esquina, como a maioria fazia, iam à igreja aos domingos e seu filho um excelente estudante a sempre tirar as melhores notas na escola.

 

 

Assim a vida deles foi acontecendo. Seu filho foi crescendo, encontrou a profissão desejada, casou com a mulher escolhida e teve dois filhos. Depois de casar foram morar num bairro distante, mas eles costumavam encontrar-se semanalmente, geralmente no almoço de fim de semana. Sempre foram unidos, mas somente foram eles. Os amigos sempre foram os mesmos de vários anos e às vezes aparecia com um ou outro colega de serviço.

 

 

João e Heloisa envelheceram e certo dia Heloisa descobriu que estava com um câncer nos seios e acabou falecendo alguns anos depois. João ficou sozinho, mas se contentava em ser um bom avô para seus netos e a viver de sua justa aposentadoria, como ele sempre dizia. Certo dia, Mário seu filho recebeu um telefonema de um vizinho próximo dizendo que algo estranho estava acontecendo na casa do pai dele, pois havia policiais e ambulância na porta da casa. Mário e sua família foram correndo para a casa do pai para saber o que havia acontecido.

 

 

João, seu pai, havia metido uma bala na cabeça, suicidara. Mário ficou atônito, sem saber o que fazer ou dizer. Depois do enterro, ele voltou à casa de seu velho pai para ver o que faria com seus pertences. Numa breve reunião entre ele e sua mulher chegaram à conclusão em doar tudo pra uma instituição de caridade e assim o fizeram. Um tempo depois, Mário recebeu a visita de uma pessoa que dizia ter recebido um dos armários que pertenceu ao seu João e lá, num dos compartimentos debaixo de uma gaveta encontrou um caderno, contendo diversas anotações sobre quase todas as atividades que ele fez a sua vida toda.

 

 

Mário agradeceu e a noite pôs a ler os relatos contidos naquele velho diário, onde o pai narrava algumas passagens de sua vida, e ao chegar às últimas páginas seu pai começou a lamentar de não ter ido tomar as cervejinhas com seus colegas de trabalho, de não ter saído nas farras de fim de semana, nunca ter ido a praia com eles, de não ter comido nenhuma prostituta, de não chegar bêbado em casa, ou seja, nunca ter feito nada incorreto. Em suas últimas palavras escreveu em letras garrafais, carcando com raiva a caneta, MERDA DE VIDA, e assim acabou seu relato.

 

 

Mário naquela noite não conseguiu pegar no sono, ficou de olhos abertos apenas pensando na vida, enquanto todos os outros dormiam tranquilamente. Na noite seguinte também não conseguiu pegar no sono e somente no terceiro o cansaço pegou de jeito e ele acabou dormindo. Depois passou quase uma semana praticamente calado, apenas pensativo, até que no sábado, assim que os primeiros raios de luz entraram pela fresta da veneziana da janela de seu quarto, levantou-se, acordou sua mulher e seus filhos e gritou bem alto: "vamos para a praia, agora!".

 

 

Todos ficaram de olhos arregalados olhando para o pai que nunca tivera atitude igual. Logo um de seus filhos sorriu e depois o outro também. Sua mulher ainda de olhos atônitos, concordou acreditando que seu marido não estava passando muito bem. Assim pegaram o carro e se dirigiram para Santos, litoral paulista. Lá naquele dia eles se divertiram como ninguém. Gastaram a vontade, até mais do que devia, todos tomaram sorvetes, comeram aqueles horríveis petiscos de praia, ele tomou umas caipirinhas junto com sua mulher, que logo começou a falar um montão de bobagens.

 

 

Depois voltaram cansados, mas felizes da vida para suas casas, todos vermelhos de tanto sol. Assim outras loucuras foram se repetindo com o decorrer de suas vidas. Mário deixou de ser um homem perfeito, um marido glorioso, seus filhos e amigos a ficarem grudados na Internet e sua mulher a colecionar amigas fofoqueiras, porém bastante alegres e sinceras. A harmonia familiar perfeita acabou, até discutiam de vez em quando e às vezes chegavam a pendurar a conta na quitanda de seu Zé.

 

 

Mário finalmente se livrou do torniquete que fora imposta pelos seus pais, tornou-se simplesmente um Silva como qualquer família Silva, imperfeitos, errantes, mas aprendendo a encontrar seus caminhos, a lutar pelas suas ambições, longe das mesmices das vidas mornas que seus pais lhe deixaram. Se a vida de Mário mudou pra melhor ou pior somente ele quem pode dizer isso, mas de qualquer forma todos que o conhecem apostam que ele provavelmente terá um destino bem diferente a do senhor João Carlos da Silva, que Deus o tenha.

 

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