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Pai


 

 

Minha mãe tinha três filhas e quase uma semana depois da chegada da quarta, o seu primeiro marido morreu numa mesa de cirurgia, aos 30 anos de idade, vítima de choque anafilático ao operar lesões nas pernas causadas por um acidente. Algum tempo depois o sogro viu por bem que ela se casasse novamente e constituísse uma nova família. Assim, como era de praxe naqueles tempos, uma união foi arranjada e depois de um rápido casamento minha mãe e mais duas filhas vieram para a capital com o seu segundo marido e iniciaram uma pequena granja, enquanto as duas filhas maiores permaneceram aos cuidados do sogro no interior, como assim ele o queria e foi feito. Pouco tempo depois meu avô materno também veio morar com minha mãe e nesse meio tempo eu cheguei ao mundo.

 

 

No começo a vida de meus pais correu dentro de certa harmonia, mas com o decorrer do tempo as atividades da granja não prosperaram e foi durante esse tempo que meu pai começou a se envolver no jogo de cartas na tentativa de solucionar seus problemas financeiros. Como todo jogador ele naturalmente se esqueceu de que a vida baseada no jogo é sempre um retorno à estaca zero. Pode-se ganhar um dia ou outro, mas a sorte nunca é a mesma e fatalmente perderá tudo e retornará sempre ao ponto zero de onde tem de iniciar tudo novamente. Essa é a rotina de todo jogador, um dia se ganha noutro perde, uma roda viva onde existem mais perdas do que ganhos, e é claro e evidente que nenhum jogador aceita essa teoria como sendo condizente com a sua verdade e assim cada vez mais acabam se entregando ao jogo até que ele acaba virando um vicio com poucas oportunidades disso sair.

 

 

Toda essa situação acabou por afetar a harmonia familiar e as brigas tiveram inicio, e como alguns homens de sua época essas discordâncias sempre acabavam em tapas e outras violações físicas muito graves. Essa situação era ainda mais alimentada pelo fato que naquela época nem as autoridades e nem a sociedade queriam saber desse tipo de problema familiar, uma questão agravante que infelizmente perpetua até os dias atuais. Com o decorrer do tempo essa situação foi ficando cada vez mais constante até que num certo momento essas violências chegaram ao ponto máximo e até o meu avô acabou se envolvendo nessa briga toda vez que meu pai passava a agredir fisicamente a minha mãe. Geralmente toda vez que isso acontecia alguém me levava longe de toda aquela situação, mas apesar de ser apenas uma criança eu sabia exatamente tudo que estava acontecendo. Muitas pessoas acreditam que as crianças não são capazes de entender as coisas, que o simples fato de esconder os problemas familiares faça com que eles não a percebam, mas isso é puro engano.

 

 

Num desse dia fui levado novamente para fora e assim permaneci no quintal e de lá podia escutar os móveis quebrando, gritarias por todos os lados e vizinhos chegando apressadamente em casa e, nessa hora aproveitando de um pequeno descuido das pessoas que cuidam de mim corri para a porta da cozinha e entrei e deparei com o meu pai aos socos e pontapés com o meu avô, os dois se atracando como animais raivosos e com diversas pessoas tentando segurar um ou outro sem sucesso. Nesse instante ao olhar toda agressão do meu pai contra o meu avô, apanhei um copo de vidro que estava sobre a mesa da cozinha e com toda raiva atirei em direção da cabeça de meu pai, e foi somente neste instante que a briga parou. Meu avô ainda continuou contorcendo de dores e o meu pai sentou-se e foi nesse instante que ele viu em meus olhos toda a minha indignação contra aquela situação, também foi neste exato momento que as nossas relações acabaram pelo resto de nossas vidas. Eu tinha apenas quatro anos de idade.

 

 

Naquela mesma noite e nos dias que se sucederam as poucas coisas que me lembro de foi de cada dia acordar e dormir numa casa de alguma família completamente estranha. Nós éramos eu, meu avô, minha mãe e as minhas duas irmãs que eram amparadas por pessoas que dávamos pousada por um dia ou outro, porém algum tempo depois essa situação acabou ao conseguir alugar uma pequena e modesta casa e foi por essa época que quase todos começaram a trabalhar, com exceção de minha irmã caçula e eu, que éramos ainda muito pequenos. Depois dessa casa muitas outras vieram, toda vez que o aluguel se tornava insuportável e nessa peregrinação moramos em diversos bairros, vilas, cortiços e barracões. Foi durante esse tempo que também passei a conhecer e saber da existência das outras duas irmãs que ficaram com o avô paterno delas. Com o passar do tempo fomos aos poucos entendendo e aceitando um ao outro e assim aprendemos a ser uma família.

 

 

Finalmente quando eu estava próximo dos meus 20 anos de idade fomos todos morar na nossa própria casa, menos meu avô que morrera antes desse sonho ser realizado. Nessa casa minha mãe viveu o resto de sua existência, talvez os melhores e nesse meio tempo a minha irmã caçula casou. Com o passar do tempo minha mãe faleceu e assim ficamos apenas eu e a minha irmã um a cuidar do outro, a casa que se tornou um ponto de encontro onde toda a nossa família se reúne ao final de cada ano ou em alguma data ou evento importante. Uma casa sempre com as portas abertas para todos.

 

 

Ainda quando pequeno recordo-me de ter perguntando umas três ou quatro vezes sobre tudo que acontecera naqueles dias tumultuosos, principalmente sobre aqueles últimos momentos entre eu e meu pai. A primeira pessoa que eu lembro ter perguntado foi o meu avô e ele em toda a sua sinceridade e sua maneira de ver realisticamente todos os fatos contou-me a sua versão, porém sempre procurando nada omitir e nem acusar quem quer que fosse. Em sua explicação não senti ódio, rancor ou mágoa, apenas a compreensão de um homem que já tinha visto muitas coisas nessa vida. Com a minha mãe foi a mesma coisa e também com as minhas tias. Todos mostraram as suas versões e todas com uma compreensão inabalável na crença de que somos todos capazes que cometer enganos em qualquer momento de nossas vidas, e que isso não era algo para ser criticado, apenas entendido e ir aprendendo com o caminhar da vida. Depois disso eu nunca mais precisei perguntar nada a ninguém sobre o passado e meu avô se tornou meu segundo pai, me amou e me orientou, e me fez ver a vida sem medo e esse foi o seu legado.

 

 

Com o passar do tempo fui esquecendo quase que completamente da figura de meu pai e assim fui crescendo e fazendo a minha história. Durante todos esses anos todas as pessoas que sempre estiveram a minha volta em nenhum momento deixaram transparecer mágoa, raiva, rancor sobre as coisas do passado e principalmente sobre a figura de meu pai, e desta forma o que dele restou foram apenas às boas lembranças, e se talvez ele não tivesse morrido tão cedo, e antes que eu pudesse compreender os desenganos da vida, quem sabe talvez tornássemos bons amigos, pai e filho novamente, mas infelizmente não houve tempo para isso.

 

 

Talvez por toda essa situação gerada em minha infância acabei me tornando provavelmente o mais privilegiado de todos, fui o neto mais acarinhado, o filho, o irmão e o tio mais amado e o sobrinho preferido das tias e tios. Confesso que todo esse privilégio fez de mim um sujeito bastante mimado e até os dias de hoje um homem de 60 anos que muitas vezes é ainda muito paparicado por todos. Não me tornei um homem importante e nem de sucesso, nem um sujeito rico e tampouco de posses, mas uma pessoa alegre a correr atrás dos sonhos mais amalucados e deliciosos, que na sua maioria não transformam em grandes resultados, porém todos eles com aprendizados muito positivos e satisfatórios.

 

 

Aprendi a viver um dia de cada vez, dar um passo atrás do outro e de muito pouco preciso para me sentir feliz, não guardo ódio, mágoa e inveja que eu me lembre, talvez apenas algumas explosões de raiva ou picuinhas de vez em quando e pequenos ciúmes quando uma determinada garota não me dá atenção, que logo passam como uma nuvem passageira, afinal ninguém é de ferro e nem tão belo e formoso como sempre nos imaginamos. Com o decorrer da vida e mesmo sendo um homem completamente cético em relação às diversas coisas religiosas, estranhas ou absurdas, sempre tenho a impressão de que alguém lá em cima gosta de mim. Evidentemente que não sei quem, mas tenho as minhas desconfianças e um dia quando a minha jornada por essa vida terrena terminar eu lá o encontrarei e terei a minha chance de agradecer pessoalmente pelos belos momentos que me proporcionaste. Então, até lá!

 

 

Texto - Criação = Osamu Nakagawa

 


 

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