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Psicólogos


 

 

Quando eu estava com os meus 22 anos tive a minha segunda crise existencial de minha vida. A primeira e normal foi quando da entrada da adolescência aos 14 ou 15 anos de idade por causa dos hormônios, mudança do meu corpo, da minha voz, e outras coisas mais que eu não me lembro mais, que me deixou muito confuso e deprimido. A única coisa que eu queria naquele tempo era entrar na cama e ficar dormindo, pois era o momento que nada sentia, apenas roncava e sonhava.

Já a segunda crise existencial foi diferente, eu era praticamente um adulto, que não tinha amigos, namoradas, que não se interessava por nada, que havia largado a escola e sem nenhuma perspectiva de futuro brilhante ou de sucesso. Passava o dia inteiro resmungando, queixando-me de tudo, não gostava dos colegas de trabalho que viviam caçoando de mim e os meus amigos da escola já estavam na faculdade em busca de seus sonhos e eu só com dor de cotovelo.

Por aquela época todos queriam se formar em direito, publicidade ou ser um psicólogo, era o ideal e moda daquele tempo, mas eu não estava a fim de estudar e como a minha vida estava uma merda resolvi procurar os serviços de um psicólogo, que naquela época e como agora custam o olho da cara, porém mesmo assim resolvi arriscar e marquei uma consulta com um deles, não lembro mais seu nome, só sei que era um sujeito muito sisudo.

Na primeira consulta contei o meu drama financeiro, por isso talvez só pudesse ter aquela consulta e nada mais, mas ele gentilmente resolveu baratear o custo das consultas de modo que eu pudesse pagar e assim começamos a nossa seção ou sessão, sei lá, de terapia. Nas quatro primeiras consultas eu lá comparecia e ficava exatamente uma hora reclamando de tudo, até do cachorro do vizinho que nada tinha a ver comigo ou com a história.

Enquanto eu reclamava, resmungava, esbravejava, e etc. o danado do psicólogo ficava apenas quieto sentado em sua confortável cadeira, sem demonstrar nenhum tipo de sentimento para comigo, olhando de vez em quando para ver se suas unhas estavam aparadas ou não ou balançando a cabeça e os braços que deviam ficar amortecidos de tanto ele ficar parado e quieto.

Na quinta terapia, porém eu explodi e disse que naquele dia não tinha nada para reclamar da minha vida. A única reclamação era ver ele quieto e parado, somente a balbuciar certas palavras, sem evidentemente dar-me sequer nenhum conselho útil ou amigável para sair da minha crise. Foi somente então que ele resolveu falar, e como falou. Olhou certeiramente para mim, olho no olho e disse o que eu esperava que ele fizesse, e eu respondi que queria que me desse bons conselhos como os psicólogos na televisão.

Ele soltou um sorriso, ou melhor, uma gargalhada discreta e disse que infelizmente não tinha conselhos algum para me dar e tampouco uma solução para os meus problemas, e que a única pessoa que podia resolvê-lo era eu mesmo, mais ninguém. Então perguntei a ele o que eu estava fazendo ali e foi então que a terapia realmente teve início. Nesse dia ele disse para eu trocar de lugar com ele. Hoje eu seria o psicólogo e ele o paciente, e assim aconteceu.

Sentei em sua confortável cadeira e ele sentou-se no meu sofá não tão confortável assim e logo ele começou a repetir como paciente algumas das reclamações da vida que eu havia feito nas consultas anteriores. Eu agora na qualidade de psicólogo fiquei quieto ouvindo ele se queixar, queixar e queixar, e confesso que ser psicólogo foi muito chato.

Depois de duas consultas e eu fazendo o papel de psicólogo, eu já não aguentava mais, até que num determinado momento eu disse em altos brados que não queria mais fazer o papel que era dele de fato. Nesse momento ele calmamente começou a perguntar o que havia me chateado ao ouvir repetir as minhas reclamações. Então eu disse que era muito chato ter a sua frente uma pessoa somente a reclamar o tempo todo, e foi nesse momento que ele disse: "isso é você, um chato!!!".

Quando ouvi dizer que eu era um chato tive vontade de pular em seu pescoço ou mandá-lo tomar naquele lugar, mas segurei as rédeas e engoli a seco. Nas consultas seguintes o processo ocorreu quase da mesma forma, eu reclamava de alguma coisa, depois trocávamos de personagens e eu acabava vendo coisas muito desagradáveis. Eu não acreditava que podia ser daquele jeito, eu não era aquilo, o psicólogo estava me embromando pensava eu.

Assim ficamos quase umas vinte consultas e a cada vez que lá comparecia, eu saia pior do que quando eu chegava. Não era possível que fosse um sujeito tão covarde, tão arrogante, tão preconceituoso, um chato de galocha, preguiçoso, calhorda, enfim, um barril de coisas somente negativas. Isso evidentemente não era eu, mas infelizmente era, mas naquele momento eu não aceitava nada daquilo, pois eu continuava a ser lindo e belo, e cheio de virtudes e nunca um monstro, um “panaca” que lá eu via.

Fiquei puto da vida, mandei à merda as consultas e a partir de então resolvi desaparecer e por quase um ano não queria nem ouvir ou ler psicólogo que eu entrava em depressão. O tempo foi passando e pouco a pouco comecei a aceitar as minhas limitações, que eu não tão belo e generoso como imaginava. Demorou muito tempo, mas a ficha e a máscara foram caindo aos poucos e assim comecei a me ver como eu era realmente, um verdadeiro boçal, um medíocre de marca maior.

Confesso que descobrir o EU interior é a coisa mais desagradável dessa vida, é como ouvir a nossa voz num gravador, ela é feia, horrível e não é aquela que escutamos. Quanto mais eu ia aceitando as minhas fraquezas mais arrepiado ficava, mas curiosamente isso não me deixava depressivo. Era duro de aceitar, me deixava chateado, mas alguma coisa, lá no fundo estava fazendo o seu efeito e pressentia que alguma mudança teria que ser feita, senão iria pra cucuia.

Certo dia ao voltar para casa após o trabalho, eu lá sentado no banco duro do ônibus, veio-me à mente uma das conversas com o psicólogo, que numa das consultas disse-me que eu era um jovem, mas agia como um velho, pensava como um velho e vivia como um velho, ou seja, só reclamando, resmungando.

Também disse que se eu fosse realmente um velho até que justificaria eu estar reclamando, afinal, um velho já não pode mais fazer as coisas que quando era jovem, não podia comer mais ninguém, seus amigos morreram e sua aposentadoria mal dava pra comprar seus remédios, seus pais e irmãos já se foram e não restava mais nada a não ser ficar assistindo televisão e a depender de todos para tudo.

Ao lembrar isso me senti pela primeira vez um velho, um velho sentado num ônibus, sozinho e amargurado, mas logo em seguida lembrei-me que eu não era um velho, e sim um jovem que precisava urgentemente aprender a viver, ou então meter uma bala na cabeça. A resposta para essas indagações demoraram a chegar.

Pouco a pouco, lentamente comecei novamente a sonhar, a ter ilusões, a perceber que precisava descobrir, descobrir o mundo, descobrir os amigos, as namoradas, o que fazer da vida, o que aprender, até que certo dia, ao voltar para casa e ao passar pela Praça 14 Bis, próximo ao centro da cidade de São Paulo, o Teatro Maria Della Costa me chamou a atenção da janela do ônibus.

Nesse momento lembrei-me de minha única uma peça de teatro que eu havia assistido, "O Auto da Compadecida" de Ariano Suassuna, num teatro que eu não me lembro de qual, que os professores nos levaram quando estava no ginasial. Era uma como se fosse um teatro de uma arena, onde todos os espectadores ficavam em volta dos atores que apresentavam a peça, formando uma grande roda.

Senti uma vontade danada de ver outra peça. Rapidamente toquei a campainha do ônibus, desci no próximo ponto e voltei correndo para ver se eu ainda conseguia comprar um ingresso, de uma peça que eu nem sabia qual era. Ao chegar na bilheteria ainda consegui um ingresso, dois minutos depois não daria mais tempo. Entrei apressadamente no teatro, procurei pela minha cadeira e cinco minutos depois a peça começou.

Naquele dia eu chorei e quase caguei nas calças de tanto dar risadas, nunca me divertira tanto nos últimos anos. Ao terminar finalmente descobri o nome da peça, "Alegro Desbum" de Vianinha. Depois disso voltei a ver outras peças muitas e muitas vezes, comecei a ir novamente aos cinemas, comer porcarias gostosas pelas lanchonetes da cidade e fazer os meus primeiros amigos de farra pelas empresas que trabalhei.

Pouco a pouco comecei a parar de me sentir um chato, de ficar reclamando o tempo todo e a começar a enxergar e aprender novas coisas. Tornei-me um bebum de primeira na farra com os amigos, fui acampar e também a levar fora das namoradas, fumei maconha, peguei gonorreia, conheci as boates e os inferninhos, andei com prostitutas, tive amigos viados, viciados e até ladrões e alguns assassinos. Por sorte, a São Paulo daqueles tempos era bem diferente de hoje, você podia ficar zanzando a noite inteira pela rua, que voltava para casa, são e salvo, se tivesse um pouco de juízo e jogo de cintura naturalmente.

O tempo foi passando, nunca mais retornei a escola, comecei a ficar contente por meus amigos formados e tendo sucesso em suas carreiras, a inveja amorteceu. Evidentemente continuava e continuo a ser um medíocre, mas isso não mais me incomodava, não era um sucesso, mas também não era um fracasso total, assim como também não fiz somente coisas erradas e profanas, nem tudo foi somente sacanagem.

Muitas mudanças profissionais foram acontecendo, sem nem eu mesmo as procurar. Elas foram chegando por si só. Aprendi a desenhar, a pintar casualmente e iniciei uma carreira como artista plástico, que acabou da mesma forma que começou, mas isso não foi um fracasso, foi o meu primeiro grande aprendizado. Trabalhei como desenhista, fui camelô vendendo flores na rua, digitei trabalhos escolares e finalmente professor de informática para o que der e vier, entre outras.

Diversas outras coisas que não deram certo foram ocorrendo ao longo de minha vida, mas nenhum deles foi um fracasso, somente talvez mais uma experiência adquirida, algo para ser repensado e questionado. Descobri também que não se pode aprender a viver através dos livros, mas precisamos essencialmente deles para buscar diversas informações, para termos uma profissão, como lazer e muitas outras coisas, porém nunca conhecimento real e existencial do viver, pois ela chega somente quando vivenciamos uma situação ou fazemos parte de um contexto.

Você pode ler livros e livros sobre a guerra, mas jamais saberá o que é realmente sem ter participado de uma. Ler diversos livros sobre cinema, ser um cinéfilo é bacana, mas nunca saberá o que é verdadeiramente um filme sem ter produzido o seu próprio, assim como tornar-se pai ou mãe sem criar seus filhos, mesmo que não sejam do seu próprio sangue, adotados.

Ler e falar sobre favelas, pobreza, fome e uma porção de outras coisas teoricamente e filosoficamente é mais fácil do que se pensam afinal as consequências do que dissermos só vai esquentar e arder no traseiro do outro, mas serve pra encher linguiça, dar entrevista na televisão, ganhar dinheiro escrevendo bobagens e também precisamos ter o que conversar e ouvir, mesmo não entendendo merda nenhuma. Linguiça também é cultura.

A vida como existência não é teoria e nem prática, é uma coisa inexpugnável que só aprendemos vivendo. O resto é puro “achismo”, eu acho isso, eu acho aquilo e pau na bunda dos outros. Viver é variação de diversas metáforas que nos trazem tristeza, alegria, felicidade, frustrações, dinheiro, dívidas e uma porção de outros trecos inexplicáveis, ou seja, falei um montão de asneiras que não quer dizer absolutamente porra nenhuma.

Muitos acham que é sofrendo que se aprende e se gabam de seu sofrimento, mas sofrer somente não basta, tem que tirar algum proveito dela, uma lição qualquer, senão sofreu por nada, como acontece com muita gente. Passa poucas e boas por essa vida e ao invés de aprender alguma coisa com ela fica apenas a reclamar, reclamar e reclamar e justificar todas as suas imbecilidades por anos a fio como uma vitrola enguiçada.

Muitos vivem 90 ou até 100 anos e vão embora sem nada ter aprendido ou achando que aprenderam e que sabem muito, mas apenas passaram por essa vida, nasceram, sofreram, foderam, dormiram e tchau, escafedeu-se. Não deixou sequer uma palavra amiga, nenhum ato sincero de caridade, bondade ou generosidade, apenas desfrutou das benesses que seu dinheiro podia lhe proporcionar, esnobando e rindo da cara de todos e se achando o dono da cocada preta, proprietário de todas as verdades.

Aprendi também que não posso ficar buscando a toda hora novos caminhos, novos rumos, elas tem que acontecer naturalmente, venha coisas boas ou ruins, e a encararmos o bicho do jeito que ela vier. Isso evidentemente não significa ficar com a bunda colada na cadeira esperando os acontecimentos bater a sua porta. Tem que passar pela ilusão, frustração, certa dose de loucura, burrice e rebeldia, e tentar fazer alguma coisa mesmo que isso seja uma grande bobagem para os olhos alheios e ver no que dá.

Se você se der bem evidentemente foi um sucesso, senão descobrirá que tudo não passou de pura bobagem, o que já é um grande aprendizado, mas isso nunca e jamais será um fracasso, apenas uma tentativa que não deu certo, quem sabe na próxima bobagem as coisas aconteçam. Arriscar-se não é garantia de sucesso, é apenas uma mera tentativa.

Acredito que para saber se as coisas foram um fracasso ou não é muito fácil. Se depois de tudo der errado, seus sonhos irem pra cucuia, e mesmo se sentindo o pior dos homens e ainda estiver de pé, e conseguir dar risada da sua própria desgraça, isso seguramente não foi um fracasso, apenas significa que desta vez não deu, quem sabe na próxima.

Aprendi também a nunca mais ficar culpando ou procurando culpados por isso ou aquilo pelos meus fracassos ou desilusões de qualquer natureza, pois a parte maior da culpa é sempre nossa. Isso pode não ser lá uma grande verdade, mas é somente assim pensando que podemos nos corrigir ou pelo menos não fazer as mesmas besteiras por vezes consecutivas. Se a culpa for do outro, pra que se corrigir? O problema é com ele. Ele que se vire, mas lembre-se quem dança é você.

Agora se o fracasso for de outro e não tiver nada a ver contigo, aproveite para culpar alguém, aliás, todos, assim como não perca a oportunidade para descer o cacete pra tudo quanto é lado, desta forma liberar e expor assim toda a sua canalhice. Mostre-se o quanto és impiedoso!!! Maldito!!!

Bom, por enquanto é só e acredito que mesmo burro e orgulhoso, e cafajeste e sem vergonha que sou consegui aprender algumas coisas que já dá para o gasto do dia-a-dia. É claro que é muito pouco e ainda muito a aprender, e espero que seja o suficiente para não mais voltar ao psicólogo, nem mesmo ter terceiras e quartas crises existenciais.

Passei tranquilamente e sossegadamente pela crise dos quarenta, agora estou a tentar a de sessenta e quem sabe mais tarde, a dos oitenta, mas isso é outra bobagem para ser contada mais tarde e se eu lá chegar. Como diz aquele velho ditado, pra quem leu, entendeu e gostou. Ótimo! Grato. Quem não..., que se dane e que entendesse ou que gostasse, ora bolas. Fui.

 

Texto - Criação = Osamu Nakagawa

 


 

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