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Zé era o irmão caçula de João, que adorava fazer contas e vivia pelos cantos a tentar as somatórias de todas as coisas. Na escola João era o primeiro da classe em Física, Química e Matemática, mas o Zé, no entanto era uma negação, sendo que a única matéria que ia mais ou menos bem era em Português e talvez em História, do resto somente conseguia uma nota razoável colando na prova dos seus colegas. Os anos foram passando e João foi cada vez mais tornando o melhor aluno da escola enquanto que o Zé, sempre a farrear com seus amigos, nunca a estudar e claro a sonhar e mentir, pelo menos nisso era muito bom.

 

 

Suas desculpas ou mentiras eram verdadeiras obras de arte, geralmente narradas quando faltava às aulas ou quando não tirava notas boas e eram magnificamente bem planejadas com um requinte de detalhes impressionantes, elas eram tão magnificamente boas que naturalmente ninguém acreditava nelas, pois a verdade é sempre nua, crua e curta, mas a mentira não, ela é cheia de detalhes que se intercalam com o restante, criando assim uma verdadeira armação muito perto da perfeição, por isso ela é tão inacreditável e logo alguém descobre.

 

 

João também não era um santo, mas toda vez que era descoberto já ia confessando tudo resumindo tudo a três ou quatro palavras. Ele não era tão bom nas desculpas quanto o seu irmãozinho Zé, esse sim era um mestre. João vivia recebendo repreensão e o Zé sempre a sair de mansinho com as suas desculpas e também com o passar do tempo foi ficando cada vez mais mentiroso. Quando chegaram à época que começaram a arrumar as suas primeiras namoradas, o Zé se tornou o maioral do bairro, ele tinha tantas histórias pra contar para as meninas que todas corriam ao redor dele para ouvi-las, é bem verdade que noventa por cento das histórias eram todas inventadas, uma mentira atrás da outra, mas apesar disso, elas adoravam.

 

 

João era meio seco com as garotas, não sabia fazer farofa, sempre sério e curto nas respostas e por diversas vezes acabava sendo grosso e, por isso não levava nenhuma vantagem quando o assunto era namoro. Já o Zé tornou-se um grande mulherengo de primeira, a sua vida era somente mulher, mulher e mais mulher, quanto mais, melhor naturalmente. Tornou-se também um grande contador de piadas, era muito simpático com todos, até mesmo com seus piores inimigos, fazia amizades facilmente e sempre tinha muitas farofas a contar, inventadas com toda certeza, mas convincentes. Mais tarde os dois conseguiram entrar na faculdade, João foi estudar Engenharia e o Zé foi para Filosofia, pois além de não ser um curso concorrido, não tinha que disputar a vaga com quase ninguém e também era a sua praia, falar, pensar, falar, pensar, e também mentir, porque não?

 

 

João continuou como um ótimo aluno e rapidamente se destacou no curso de Engenharia, era quase um auxiliar direto do professor que tinha por ele afeição de pai. O Zé também se deu bem em Filosofia, pois o curso além de ser um campo que ele gostava e dominava, era frequentado por muitas e muitas garotas, ao contrário de Engenharia que era um curso praticamente masculino naqueles tempos. Durante a época da faculdade João teve apenas uma namorada e o Zé, bem o Zé infelizmente perdeu a sua contagem e a cada semana aparecia aos abraços com uma, e em cada lugar que gostava de frequentar sempre havia aquelas de reserva, Zé era um caso perdido, como diziam seus pais e também seus professores.

 

 

Terminada a faculdade João logo conseguiu um bom emprego e o Zé ficou a ver navios por um bocado de tempo, afinal era difícil trabalhar como Filósofo, a não ser dando aulas, mas isso ele não gostava. Não conseguindo um emprego na sua área o Zé foi ser vendedor e se deu muito bem, pois era muito bom na conversa, sempre inventava boas histórias para convencer o cliente da qualidade do produto e de sua necessidade. Era praticamente impossível o cliente escapar quando o Zé resolvia vender alguma coisa para ele, por pior que fosse o produto acabava se tornando um item indispensável depois de algumas lorotas ou mais uma de suas histórias.

 

 

João se deu tão bem em sua profissão e logo foi enviado para outros países para desenvolver importantes projetos na área de engenharia civil. João construiu viadutos, pontes, estradas de ferro e arranha-céus, seu nome projetava-se cada vez mais dentro de seu ramo. Com o passar do tempo tornou-se um Engenheiro pago a preço de ouro e seu nome a constar de diversas revistas especializadas em construções. O Zé apesar de ser um ótimo vendedor, coitado nunca conseguiu sair de sua vida chinfrim e quase todo o dinheiro que ganhava torrava em bebedeiras, com os amigos ou então com as suas eternas namoradas, ou seja, sempre duas ou três e por isso não havia dinheiro que desse.

 

 

Zé vivia pedindo ou implorando sempre dinheiro emprestado ao seu irmão João que ele nunca devolvia naturalmente, mas mesmo a contragosto João sempre tirava o irmão dos seus apuros financeiros. João encontrou uma boa moça de família importante e casou-se com ela e tiveram três filhos, que também era igual ao pai e ótimos estudantes. O Zé naturalmente continuava solteiro, fanfarrão e a viver sempre pendurado em amigos considerados de má fama e mulheres de todas as espécies, já que o Zé não tinha preconceito em relação a elas, para ele não havia mulheres feias, baixas, gordas, cheirosas, mal educadas ou até prostitutas, caiu na rede era peixe.

 

 

Assim as vidas de João e do Zé foram seguindo, cada qual com o seu destino. Para os dois a idade foi passando, João sempre a viver muito bem financeiramente e o Zé sempre feliz, mas também sempre na “pendura”, porém ele não reclamava afinal ele tinha a vida que pediu a Deus. Nunca quis ser porra nenhuma na vida e isso de certa forma ele havia conseguido. Quando João chegou aos 60 anos de idade a sua saúde começou a ficar muito abalado, começou a ter doença de tudo que se podia imaginar, enquanto a saúde do Zé ia muito bem apesar de todas as cachaças que ele não dispensava.

 

 

A partir dos 60 anos, a vida do João se tornou praticamente médico, hospital e cama, enquanto a do Zé continuava com a sua sinuca no fim de semana, de vez em quando um churrasquinho aqui outra ali, e ia tocando a vida feliz a cantar. Ele acabou herdando a casa dos pais, pois nunca saiu de casa, aliás, sempre viveu com eles e a custa deles, mas sempre foi um bom filho, carinhoso, amável e no fim da vida de seus pais fez o que pode para dar-lhes pelo menos a alegria de sua presença, sempre estava ao lado deles, enquanto que o João somente mandava dinheiro e uma carta vez por outra, que a mãe sempre lia chorando de saudades.

 

 

Quando João chegou aos 70 anos de idade morreu de câncer no esôfago, seu nome virou rua, edifícios e praças, além de diversos títulos deixados conquistados durante a sua existência. Apesar do seu sucesso profissional sempre teve a sua vida pessoal morna, nunca se apaixonou loucamente por nenhuma mulher, praticamente não fez nenhuma loucura na vida, sempre a caminhar em uma linha reta e sem desvio, dizia ser feliz, mas estava sempre pensativo, com a cara amarrada e depois dos 40 anos tornou-se extremamente ranzinza. O Zé continuou com boa saúde, sempre com um sorriso estampado em seu rosto e com uma boa piada a contar pra quem quisesse ouvir.

 

 

Depois da morte de seu irmão João e seguindo um conselho de um amigo, o Zé resolveu escrever um livro já que ele sempre fora considerado por todos bom pra inventar mentiras, em vista disso porque não usar esse talento para inventar histórias e deleitar os espectadores com suas lorotas e "causos". Assim o Zé certa noite sentou-se diante do computador e começou a escrever a sua primeira história literária onde narrava às aventuras de uma linda jovem sempre cercado de diversos perigos e missões secretas, personagem esse que ele foi construindo com as lembranças de todos os seus amores, no entanto a construção da personagem ficou tão perfeita, a jovem tão linda, espetacularmente glamorosa e cheia de vida, que o Zé acabou simplesmente se apaixonando por ela de verdade, como se fora a sua primeira vez. Ficou deslumbrado com a sua criação, pois de certa maneira ela era tudo aquilo que ele sempre sonhara e nunca encontrara.

 

 

O livro logo se tornou um grande sucesso e assim passou a escrever outros livros continuando a narrar as aventuras de sua idolatrada e a cada história seu coração ficava mais e mais empolgado e louco de amor e paixão por aquela criação. Com a sua amada personagem nasceu o primeiro beijo em Roma, a primeira noite de amor em Paris, loucuras em Madri e brigas em Portugal, reconciliação no Brasil e infidelidades na China, e assim com o passar das aventuras começou a também nascer entre o Zé e a sua criação um verdadeiro jogo de sedução, infidelidades, brigas e deliciosas reconciliações com direito a tudo que um homem podia desejar.

 

 

Numa dessas aventuras, porém ela conheceu um homem e se apaixonou loucamente por ele, mas o Zé não conseguia aceitar isso, começou a desenvolver um ciúme doentio, passou a persegui-la por todos os cantos, invadia sua intimidade, atrapalhava as suas noites de amor com seu amado e finalmente quando não mais conseguiu suportar toda aquela situação, o Zé se jogou de um viaduto morrendo espatifado contra um caminhão que passava logo abaixo.

 

 

Os anos foram passando e as histórias do Zé continuaram a passar de geração a geração. Duzentos anos depois de sua morte, Zé era ainda lembrado por sua imensa paixão pela sua criação, enquanto as obras de João se fora, assim como também seu nome desaparecera das praças, ruas, João simplesmente já não mais existia. Quinhentos anos se passaram e Zé continuava a ser lembrando pelos trovadores e poetas e hoje mil anos de sua morte, uma homenagem lhe será prestada pelos maiores expoentes literários da poesia moderna. Zé o maior “mentiroso” de todos os tempos.

 

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