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Outros - A istória di Zequinha i Serafina


 

Pintura - Tarsila do Amaral

 

A istória que eu vô lhis cuntá data dus tempos de antigamente, lá pelos idos de mir novecentas i arguma coisa, num lugá prá lá dus cafundó, numa época in qui as pessoas eram todas simpris, num tinha estudo i donde tudo si prantando dava. Era uma vida pacata, gustosa i todos vivia di sua culheita i darguns porcos i cabras pra criá.

 

Pintura - O Violeiro - Almeida Junior

 

Di vez em quandu acuntecia uma festa aqui, outra aculá, principarmente quando arguém arresolvia si casá. I foi nesse tempo que u Zequinha, que já beirava aos quarenta arresolveu se juntá com a pobre Serafina, qui tombém já tava encaiada fazia um tempão. Com u passá du tempo, tanto Zequinha i a Serafina acabaram ficando, proquê seus pais foram cada quar morrendo i elis tornando suzinhos, inté qui arguém sugeriu a elis di casá, di modis elis num ficá só i amssim acunteceu.

 

Pintura de Heitor dos Prazeres

 

Pintura primitivista de Daniel Firmino da Silva

 

Foi uma festança daquelas, havia porco assado i galinha de muntão. Havia muito quentão, parecia inté São João. Muitas cantorias, o porvo dançô i a festança entrô noite adentru i só foi acabá com u raiá du novo dia. Exaustos, todos foram para suas casas, inda levando um porco du qui restara di todo aqueli festejo.

 

Pintura - Anita Malfatti

 

Zequinha e Serafina ingora casadus arresorveram juntar as suas terras, pois elis já eram vizinhos  desdi criança, cresceram juntos currendo pelas roças, brincando de jogá merda de cavalo um no outro, i amssim foram crescendo como dois amigus irmãos. Quando vivos, os pais dos dois si davam muito bem i torciam pra modis elis crescerem ficarem juntas. Mas o tempo passou i nadica acunteceu. Us pais deles si foram i só amssim qui a coisa acabô acuntecendo.

 

Pintura - O Mamoeiro - 1925 - Tarsila do Amaral

 

Arguns anos si passaram, Zequinha e Serafina viviam filizes de dar dó, pois elis sempre si deram muito bem. Um ajudava o outro i amssim iam tucando a sua pequena hortinha e arguns animar, qui di veiz im quando elis trucava com as coisas di outras chacrinhas vizinhas. Elis num tinha du qui queixá.

 

Pintura - Ana Maria Dias

 

Mais certo dia o cumpadi Menelau, sua nova muié i um muntão di fios apareceram por lá, pra modis fazê uma visita di cortesia, pois há muito tempo ninguém aparecia pelas bandas di lá, i ficaram espantados di ver Zequinha e Serafina, apesar di estarem tanto tempo juntos, inda não terem nenhum fio. Xereta comu sempre, Menelau preguntou ao Zequinha o proquê delis num terem fios, si argum delis tinha probremas i coisa i tar.

 

Pintura - Domingo na Fazenda Baia- Marisa Vidigal

 

Zequinha im sua inocênça sem iguar arrespondeu ao cumpadi Menelau qui eli, mais a Serafina já havia pensado nisso, mas o probrema é qui elis num sabia exatamente como encumendar um fio pra Deus, nosso senhô. Ispantado, Menelau indagou Zequinha di todas as maneiras i discobriu qui eli rearmente num sabia di nadica a respeito.

 

Pintura - Soltando Balão - Airton das Neves

 

Menelau intão pediu a sua muié tombém indagar Serafina sobre o assunto dus fios i tombém descubriu qui ela inguinorava cumpretamente a união sexuar. Perprexos, mais cum dó dos dois arrresolveu acunselhar a elis prucurarem u pároco pra qui eli pudesse expricá tim por tim como fazê pra modis encumendar um fio a Deus.

 

Pintura - Ismael Nery

 

Amssim no dia seguinte, Zequinha e Serafina si colocaram em direção da igreja pra cunversar com o santu padi. Lá chegando cuntô ao padim Zé todo u acuntecido, a visita do cumpadi Menelau i a vontade delis di incumendar um fio, amssim comu pedí ao santo padi expricações sobre os procedimentos i coisa i tar.

 

Pintura - A Procissão - Helena Coelho

 

Naturarmente qui o padim ficô todu sem jeito i inté tentô pegá arguns exempros na Bíbria, mas amssim mesmo era muito difícir pra eli expricar ao casar, a relação sexuar. Num tendo outra saída u padim disse ao Zequinha pra ir à casa da parteira Maria, qui ela expricaria tudo, afinar a pessoa qui mais intendia de fios era ela, num é mesmo. Assim Zequinha e Serafina foram procurá a dona Maria.

 

Pintura - Onde eu estaria feliz - 1965 - Di Cavalcanti

 

Lá chegandu, cunversa vai cunversa vem i a dona Maria, bem qui tentô, mais num si sentindo a vuntade para dar todas as expricações a Serafina, fez cum qui seu marido Pedro levasse u Zequinha lá pra fora, i amssim cuntá como tudo divia ser feito. Um cunversê de óme pra óme, intendi. A única recumendação di Maria para Serafina é qui ela cumpreendesse tudo aquilo u que Zequinha tiria de fazê, mesmu num entrando nus detalhi, pra modis elis terem o tão esperadu fio. Essa foi a mió parti qui Serafina intendeu.

 

Pintura - A Casinha no Mato - Aparecida Azevedo

 

Lá fora, Pedro cunversava com Zequinha i amustrando comu us animar fazia pra terem us seus fiotes. Mostrô comu a cabra intrava no cio, u qui Zequinha já sabia muito bem. Lembrou qui nestes momentos o bodi amuntava sobre a cabra i fazia tudo aquilo qui u Zequinha já desde criança tava acustumado i cansadu a tudo aquilo ver, sem a nada cumprender naturmenti.

 

Pintura - Mulher e Paisagem - 1931 - Di Cavalcanti

 

Amssim felizes da vida, u casar Zequinha i Serafina vortaram pra suas casas pra modis pruvidenciá u fio tão esperado. Todus us dias Zequinha ia inté u pastu i lá ficava por horas observando atentamente us animar da casa, inté qui porco tempo dispois discobriu qui uma das cabras tava nu ciu. Rapidamente curreu pra casa i avisô a Serafina qui havia chegado a hora delis encumendarem u fio.

 

Pintura - Poveda Padilha

 

Zequinha levou u bodi pra bem longi, dispois curreu para a cabra i começô a fazê tudo aquilo qui era a obrigação du bodi fazê, i a Serafina só oiando, não intendendo nadica, mas obiservandu tudo issu cum naturaridade, sem espantu i cum muita inocênça a tudo aquilo, mais tombém muitu ansiosa pra qui logo u fio chegasse.

 

Pintura - Chico da Silva (1910-1985)

 

Zequinha fez u paper do bodi pur diversas veiz inté u cio acabá i amssim ficaram a esperá u fio deles chegá. U tempo foi passando i nadica acunteceu. Numa outra época Zequinha tentô tudo novamente cum a porca, cum a égua i de novo cum a cabra i também nadica acunteceu. O fio prometido num veio, mas por outro lado Zequinha tombém nunca mais largô da cabra.

 

Pintura - Francisco Rebolo Gonsales

 

Tristes por num conseguirem ter u fio esperado, amssim ficaram por um longo tempo, inté qui um dia Zequinha ouviu u cunselho di um amigu pra elis irem procurá o Coroné Epaminondas, qui casara com uma muié tremendamente fogosa i agora já tinha pra mais de quinze fios. Eli era a pessoa mais indicada daquela redondeza a dar uma boa expricação pro Zequinha e Serafina.

 

Pintura - Namorada na Garupa - Waldomiro de Deus

 

Zequinha voltô pra casa sartitando di alegria, contô a Serafina i os dois pegaram a mula i si colocaram a caminho da fazenda du coroné qui ficava lá prus lados du ribeirão. Saíram bem cedinho i lá pela tardinha lá chegaram i foram muito bem ricebido pelo coroné, qui tombém era muito amigo dos falecidos pais di Zequinha i Serafina.

 

Pintura - Parada para a Merenda - Helena Coelho

 

U Coroné Epaminondas serviu pra elis um belo dum armoço, i entre uma cunversa i outra preguntou ao casar u qui elis vieram fazê pur aquelas bandas. Foi quandu Zequinha explicô toda a istória ao Coroné, qui num sabia si ria ou si ficava espantado cum tudo aquilo. Mais, di bom grado, arresolveu ficá sério i escutá u conversê cum todo u respeito.

 

Pintura - J. Sousa

 

Indagado pur Zequinha pela maneira de modis encumendar um fio, u Coroné pigarreô di cá, pigarreô di lá, tussiu, andô di cá pra lá, tentô falá arguma coisa, desistiu. Dispois di quase uma hora andando di um lado pro outro, o Coroné finarmente encontrô a solução.

 

Pintura Primitivista de Waldomiro de Deus

 

Pintura Primitivista - Waldomiro de Deus

 

Alembrô qui tinha numa fazenda próxima um bebezinho qui nascera há pouco tempo, fruto di seu acunchego com uma caboclinha novinha, às escuondidas di sua muié naturarmenti, igual a muitas outras qui eli tinha naquela região, i pra si livrá du incômodo arresolveu convencer u Zequinha i a Serafina a levá o tar rebento, dizendo-lhis pra elis num si preocupá com essa istória di comu fazê fios, proquê era um troço muito cumpricado, coisa i tar, i purtanto era mais fácir elis já levarem um já pronto, num é mesmo!

 

Pintura primitivista de Blanco Castro

 

Amssim, Zequinha i Serafina, filizis da vida, pegaram a criancinha qui acabara di desmamar, i comu a mãe num tinha condições du fio criá, levaram u bebezinho pra suas casas i lá criaram u pequeno fio cum todo u amor i carinho qui elis pudia dá.

 

Pintura primitivista de José Antonio Carlos

 

U porvo da cidade cunhecia bem toda a istória, mas ninguém ousava dizê coisa arguma, mesmu proquê Zequinha i Serafina eram pur dimais queridos pur todus, i amssim houve um cunsenso em todos di ficarem di bico fechado, em respeito a elis. Pur isso mesmu, nunca horve ninhuma guzação i todus passaram a aceitar a criança comu si fosse du casar i amssim ficô. U mininu foi crescendo feliz cumo eli só i tombém amadu e respeitadu por todos, inté si turná um homem feitu.

 

Pintura - Adão Francisco

 

Muitus i muitus anus dispois, porém um outro causo apareceu, di um casar qui já estavam casados há mais di anus, mais num sabia nadica di comu encumendar um fio. Mais desta vez o pessoar da cidadi já sabia quar era a receita, i logo trataram di dizer ao casar pra prucurarem o Coroné Epaminondas, qui tombém passô a sê chamadu di Coroné Cegonha, pois eli era a solução di todos essis tipus di probremas. Amssim termina essa istória, ingora si vosmecê tombém tivé u mesmo probrema, num si avexe não, é só precurá o Coroné, uai, qui uma solução eli vai ti encontrá. Inté.

 

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Criação: Osamu Nakagawa

Setembro de 2010


 



 

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